A tarde era extenuante e de uma intensa canícula. O Estádio Municipal Dr. Alves Vieira, em Torres Novas, registava uma turba de pessoas em apoio das equipas das quais eram adeptas. Disputava-se a final do Campeonato da III Divisão Nacional, a 30 de julho, e cujo prélio ditava apurar o campeão da III Divisão, época 1994/1995, um términus da temporada algo atribulada, pois os sul-alentejanos não sabiam, ao certo, quem seria o outro finalista. Tudo resolvido e lá se defrontaram o Clube Desportivo de Beja e o Sporting Clube de Lamego. O jogo, a que tive oportunidade de acompanhar ao minuto nas ondas da “Rádio Voz da Planície”, de Beja, sendo o seu relator António Baião e eu, José Saúde, o comentador. Existem, em cada um de nós, memórias que jamais serão esquecidas. O Desportivo de Beja regressava à II Divisão Nacional e, obviamente, o povo da bola bejense almejava o símbolo maior de todo o seu historial. O jogo, equilibrado, registava uma igualdade a zeros. Pelo meio a equipa do Desportivo ficou reduzida a 10 unidades, por expulsão de Muller, e o jogo aproximava-se do fim. Perspetivava-se, desde logo, o habitual prolongamento, mas eis que Mohamed, à passagem do minuto 88, num remate de fora da área, carimbou a vitória e a respetiva conquista da prova. O delírio nas bancadas foi incomensurável, a alegria dos adeptos entrou em êxtase, bastando aos jogadores, em vantagem do marcador, gerir o encontro até ao apito derradeiro do árbitro. Mohamed tornou-se herói da façanha, mas nunca renegaremos a elevada entrega de toda a equipa ao longo do jogo, a qual foi irrepreensível. Mohamed nasceu a 8 de abril de 1967, em Tanger, Marrocos, e foi trazido do seu sagrado solo habitacional pela mão de Hassan, um guarda-redes que, à época, era conhecido num plano superior do futebol lusitano. Atualmente, o marroquino, um centrocampista de eleição, reside em Cuba, onde tem colaborado com o Sporting local. A carreira de Mohamed no cosmos da bola foi enternecedora. Enquanto atleta do Desportivo de Beja atuou na III Divisão, II, e Divisão de Honra e, mais tarde, nos palcos do escalão principal do futebol nacional, atuando no Campomaiorense. Interessante é salientar o grupo de trabalho que elevou Beja, e a região, a um palco que nunca mais será esquecido: Carlos Piteira, Zé Manuel, Zé Manuel Ramos, Pires, Mohammed, Perdigão, Ahmed, João Rolo, Moura, Laguna, Zé Pedro, João Paulo, Hugo Guerreiro, Espadinha, Pedro Jorge, Arlindo, Jorginho, Ivo, Agatão, Nelinho, Muller e Álvaro. O treinador era o antigo magriço Jaime Graça, Zé Piteira, treinador-adjunto, Marinho e Góis, os massagistas. No pretérito sábado, 20, no Campo do Bairro Nossa Senhora da Conceição, uma equipa com jogadores que pisaram vários palcos futebolísticos mundiais, sendo todos eles naturais de Tanger, defrontaram, num jogo amigável, antigos atletas do Desportivo de Beja, que, num singelo grato de afeição, homenagearam Mohamed. Mohamed, de Tanger, Marrocos, a Beja e um golo que levou o Desportivo a campeão nacional. Fica a certeza que o antigo jogador sempre foi um homem bom, sério, humilde, honesto, afável e de uma grande simplicidade.