Diário do Alentejo

Três meses de férias
Opinião

Três meses de férias

Vítor Encarnação

21 de junho 2026 - 08:00

Sou professor e, como é cientificamente comprovado por abundantes bitaites, tenho três meses de férias. Inicio a pândega ainda antes de o verão começar e só volto a dar algum retorno que preste à sociedade quando o outono já está à porta. Como todos sabemos, esta regalia, a par de outras escandalosas benesses, tem tornado a profissão irresistivelmente atrativa. Trabalhei pela última vez no dia doze de junho e até meados de setembro não volto a pôr os pés na escola. Como vou estar tanto tempo ausente, achei por bem despedir-me da minha coordenadora de departamento, dos diretores de turma, do secretariado de exames, dos colegas de educação inclusiva, do diretor e do presidente do conselho geral. Eis senão quando, contrariando o senso comum e a sabedoria popular, cada um deles me lembrou que tinha algum trabalho a fazer, ainda que pouco e leve, antes de me dedicar ao longevo e imoral ócio. Afinal, ainda tinha sete reuniões de avaliação e dentro de cada uma delas havia que redigir, em traços breves e soltos, uma dúzia de documentos. Afinal, ainda tinha aulas de preparação dos alunos para os exames nacionais, vigilâncias da primeira e da segunda fase dos exames nacionais, seria classificador de exames nacionais, teria novamente conselhos de turma depois dos exames nacionais, reuniões de departamento e de área disciplinar, reuniões com os pais, a redação do relatório de desempenho docente, o inventário de materiais, trabalho de elaboração de turmas e construção de horários para o próximo ano letivo e a reunião de conselho geral para validação de toda a documentação mesmo no final de julho. E dizem-me que tenho de voltar logo no primeiro dia de setembro. Mas, obviamente, de forma suave e lenta para não destruir o mito dos três meses. 

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