Diário do Alentejo

In memoriam: doutor Jorge Rabaçaça
Opinião

In memoriam: doutor Jorge Rabaçaça

Pedro Vasconcelos - Ex-Presidente do Conselho Sub-Regional de Beja da Ordem dos Médicos

15 de junho 2026 - 08:00

Há pessoas incontornáveis na vida de uma comunidade. O doutor Jorge Rabaça é bem, disso, um exemplo.A despeito da dedicação de cirurgiões e enfermeiras parteiras, só em 1972 a Obstetrícia do nosso hospital ganhou foros de cuidados de maior especialização, com a chegada do doutor Rabaça.Ele foi um dos especialistas-pioneiros de uma plêiade de médicos de grande prestígio, que dotaram o então jovem hospital de Beja de uma reconhecida fama intra e extra-muros – quantas vezes, eu e outros, dizíamos: “Se adoecer em Lisboa, levem-me para Beja!”. Pelas suas competências, e pela escola de saberes científicos e pedagógicos que semearam, nomes, entre outros e além do doutor Jorge Rabaça, como os doutores Brito Lança, Horácio Flores, Escoval Lopes, Covas Lima, Lopes Vasques, José Lebre, Apolino Salveano, Artur Carvalhal, Luís Fonseca, Henriques Pinheiro, foram (apropriando-me da designação histórica) o que eu chamaria, com carinho e gratidão, a “Ínclita Geração” da nossa Saúde local.Centenas foram as crianças que as suas mãos, hábeis e disponíveis, trouxeram ao lado de cá da vida. Porque, sozinho, foi com uma especial entrega nos primeiros tempos nesta cidade, que adotou como sua, que respondeu às chamadas, por vezes sucessivas, que o tiraram do lar, qualquer que fosse o dia e a hora. E fê-lo, claro está, pelo compromisso hipocrático de ajudar o outro, sem as compensações ou incentivos que, só muitas décadas depois, a lei viria a prever. Há uma diferença entre colega, doutor e médico. Vejamos: o doutor Rabaça infundia respeito, mas também o dedicava a quem consigo trabalhava. Um simbólico, mas significativo, exemplo disso era o vocativo “Sr. Dr.” com que tratava (e impunha que fossem tratados) até os recém-licenciados que entravam no seu serviço, algo embaraçados, como eu, com uma deferência de que não nos sentíamos merecedores. E não era, como jocosamente alguns sibilavam, um anacrónico pretenciosismo; era um genuíno sinal de respeito ético. Era, afinal, ser COLEGA. Uma licenciatura dá título de Dr., sim. Mas isso... não passa de um nome que nada garante, sobretudo, àqueles (não só na medicina) que têm a ilusão de que ser-se Dr. lhes dá os tacões altos que os guindam a um nível que o seu nível não tem. Por fim: buscar mais conhecimento do que a especialidade confere, fortalecendo a competência própria; ser-se disponível para lá de rígidas baias; e atender-se ao lado humano do ser que se trata; isso... é ser-se MÉDICO! E o nosso doutor Rabaça, apreciador de arte, de humor subtil, amigo disponível, competente no saber, firme nas convicções e cavalheiro no trato, era tudo o que colega e amigo comportam! Pior do que a amnésia do Alzheimer, é a das sociedades: ignorar símbolos passados que nos fizeram caminho, destrói alicerces e denota até alguma leviandade que, algo adiante e depois dos garantidos trambolhões, o karma se encarregará de tocar no ombro, com o doloroso sussurro: “Eu não te disse?”. Ao fim de dois meses da partida do doutor Jorge Rabaça, e enquanto não aconteça a adequada homenagem que o seu exemplo merece, não podia eximir-me, com gratidão, a ensaiar um modesto testemunho, que, como colega, me exijo e, como amigo, me imponho.

Comentários