Diário do Alentejo

Remédio caseiro
Opinião

Remédio caseiro

Vítor Encarnação

14 de junho 2026 - 08:00

Os pais nunca tocaram qualquer instrumento musical, nunca até agora tinham assistido a nenhum concerto, nunca se lhes conheceu gosto ou interesse por violinos, flautas ou pianos. Mas agora, a filha mais nova anda numa escola de música, andam quase todas os colegas da turma, é preciso estar ao mesmo nível, mais os pais do que os filhos, diga-se em abono da verdade. Nem lhe perguntaram se ela queria, se gostava, se fica nervosa, se preferia outra coisa. Vão vê-la, só a veem a ela, só a ouvem a ela, ela é a mais dotada, nem vale a pena fazer comparações. Os pais só leram os livros obrigatórios na escola, nunca escreveram nada que abrisse outros horizontes para além da rotina, nunca deram valor à voz e a palavra. Mas agora, o filho tem de participar nos concursos de leitura de escrita e percorrer as várias fases, de escola em escola até à escola final. O filho é o que lê melhor, o que escreve melhor, malandros dos júris, isto está tudo viciado. Os pais nunca se aplicaram, a sala de aula era uma brincadeira pegada, fartura de negativas no fim do período. Mas agora, os filhos têm de ter resultados excelentes nos testes, têm de ser sempre melhores do que os outros e os professores são divididos em bons e maus consoante o que sair na pauta. O pai nunca jogou nada que prestasse, às vezes ficava no banco, outras vezes nem isso. Mas agora, o filho tem de ser titular, se não for, o treinador é chamado à atenção, quem julga ele que é, não há nenhum melhor do que o seu rebento. O filho é que tem de marcar os livres, o árbitro é um corrupto, o pai e a mãe chamam nomes ao árbitro e aos adversários e aos pais dos adversários, o filho tem sempre razão. Para frustrações e incapacidades próprias há um remédio caseiro. Chama-se filhos. 

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