Observo, com a indefetível atenção, imagens fotográficas antigas que me levam a viajar por épocas revigorantes e recordar prazos áureos em que o público acorria ao espetáculo desportivo, chamado futebol, com uma frequência deveras entusiasmante. Serpa, povoação há muito estimulante desportivamente e não só, vivia momentos de um gáudio absoluto. Estávamos na década de 1950. João Palma Cano, um lavrador abastado, dedicou-se com honra e devoção ao emblema da sua terra natal: o Futebol Clube de Serpa. Para trás ficava a chegada à então “Vila Morena”, hoje cidade, o jogo da bola no ano de 1923. João Morgado Gomes, António Batista da Palma, Jacinto Lança, João Batista Palma, Arnaldo da Cruz Carrasco e Manuel Campina foram alguns dos seus grandes incitadores. Em 1925 deu à estampa o grupo Gatos Football Clube Serpense, onde João Batista Galamba, capitão de equipa, assumiu-se como principal precursor do conjunto que se sediou na Sociedade Artística Filarmónica Serpense. Na localidade havia uma outra sociedade que dava pelo nome de Filarmónica União Serpense, sendo os rapazes daquela associação conhecidos pelos “Os Trauliteiros” e criaram o Vitória Sporting Clube. Depois de anos marcados por dérbis locais, eis que no dia 2 de dezembro de 1938, tendo como sequência o efémero Club Football Serpense, fundou-se o Futebol Clube de Serpa (FC Serpa). A coletividade cresceu, dimensionou-se encaixada com os valores éticos e desportivos das suas gentes, entrou nas competições da Associação de Futebol de Beja, ganhou estatuto e eis que a 23 de julho de 1957 disputou, em Coimbra, a final do Campeonato Nacional da III Divisão, tendo batido a formação do Vila Real de Trás-os-Montes por 2-0, sendo os golos da autoria de Coureles e Teixeira da Silva. Eram os tempos dourados do FC Serpa, no qual proliferavam craques de renome nacional. O treinador chamava-se Fabian e tinha no grupo de trabalho o Cerqueira, Sardinha, Fidalgo, Diamantino, Eduardo, Ferreira, Pacheco, Manuel Baião, Garcia, Picareta, Coureles, Patalino, Cecílio, Cordeiro, Teixeira da Silva e Manolo, de entre outros. João Diogo Cano, o manager, foi um homem que muito investiu do seu próprio bolso avultadas quantias monetárias e que jamais renegou o que lhes era pedido. Revi, recentemente, uma fotografia em que a bancada se apresentava repleta de pessoas, enquanto no interior do retângulo os jogadores se entregavam, com afinco, à tarefa que lhes era pedida. Claro que desses gloriosos tempos resultaram incentivos a uma juventude irreverente, cuja ambição passava pelo futebol. Serpa era um exemplo, logo a vontade em defender as cores do clube ganhou uma colossal ansiedade a uma juventude que sonhava envergar as camisolas de um grémio que clamava o caminho dos êxitos. O futebol dos mais novos galgou fronteiras, o emblema tem sido excelente na identificação de novas estrelas, sendo a urbe, no pretérito fim de semana (sexta-feira a domingo), palco do 2.º Torneio Cidade de Serpa, onde estiveram presentes centenas de jovens em representação de 15 clubes, sendo estes representados pelos seus diversos escalões. Serpa, imagens que transmitem inegáveis prazeres, sendo que a equipa sénior se prepara para continuar no Campeonato de Portugal.