Um destes dias, a seguir ao almoço, ainda primavera, o Sol alto a rebentar de calor, o corpo vindo da chuva longa, ainda pouco habituado a tal antecipação estival, levava eu uma mochila a tiracolo, uma pasta na mão esquerda e um saco na mão direita, quando os atacadores dos sapatos se desataram e longo era ainda o caminho. Tentei adaptar os passos àquela instabilidade, não são poucas as vezes que já tropecei e caí, tinha pressa, estavam pessoas à espera do que eu levava nas mãos e no pensamento. Talvez se eu fosse mais novo tivesse conseguido harmonizar o calor precoce com a carga e os sapatos desgovernados. A minha sorte foi que no caminho havia um pequeno muro de pedra, ideal para poisar os meus fardos e sobre ele colocar os meus sapatos insurretos para, sem me dobrar muito, atar os cordões e ir para a reunião. Mas de repente, o meu mundo mudou. Algo de extraordinário, de belo e reconfortante aconteceu. Acabou a aspereza do alcatrão, a torreira, o peso das obrigações, o desconforto do suor. O pequeno muro ficava à sombra de um damasqueiro. A árvore encheu-me de verde, a árvore suavizou o que era cruel, a árvore perfumou a minha pele que vertia água, a árvore libertou-me da pressa. E depois os frutos amarelos e alaranjados, ali à mão de colher, as minhas mãos soltas apanharam dois e a seguir mais dois, o veludo a soltar-se do caroço e a derreter-se na boca. E depois os pássaros, uns amarelos, outros azuis, voavam dentro da árvore, não saíam de dentro da árvore, comiam os frutos mais altos, aqueles a que só os pássaros chegam, pedacinhos de veludo a derreterem-se no bico. Ali fiquei, saciado de silêncio, de damascos e de pássaros. Está mais que provado que a natureza escreve por atacadores tortos.