Conheço uma mulher que afirmou a biblioteca como o novo largo da comunidade, reconstruiu-o, redimensionou-o, deu-lhe outro nome. O mestre pediu-lhe que não tivesse sono na cidade acordada e que não descansasse enquanto o largo de onde se vê o mundo não estivesse pronto. Pediu-lhe também que não descansasse nunca daí para a frente, em cada dia, em cada tarde, em cada noite, em cada exposição, em cada seminário, em cada tertúlia, em cada apresentação de livro, em cada sessão de contos, em cada oficina, em cada conversa, em cada clube de leitura, em cada silêncio de se estar a pensar, em cada feira, em cada palavra andarilha. Conheço uma mulher que há décadas que não descansa, há décadas que cuida desse largo onde vive a liberdade, terreiro que é chão, céu e horizonte ao mesmo tempo. Quando a palavra deixou de se ouvir nas praças e nas ruas, quando o silêncio ocupou os bancos dos jardins e não sobrou espaço nem tempo para a voz e para o desassossego, esta mulher reposicionou a essência do conhecimento e da cultura. O que a voragem do tempo teimava em apartar, a resiliência desta mulher teimava em achegar. Conheço uma mulher que vive nesse largo, grande, dinâmico, inquieto, interativo, decorado com poetas e crianças e velhos e sonhadores e cientistas, feito de memórias, feito de histórias, feito de frases que são frutos pendurados no tronco das paredes, feito de jornais abertos sobre o peito das mesas, feito de livros, de muitos livros, de todos os livros – o que são livros se não a nossa vida tatuada no papel! Conheço uma mulher que é a guardiã de um sonho. O mestre pediu-lhe que o sonho perdurasse e a mulher cumpriu, o mestre pediu-lhe que cuidasse do largo e ela assim fez. Agora é ela a mestre do destino do largo.