Diário do Alentejo

Marcelino,  o velho capitão
Opinião

Marcelino, o velho capitão

José Saúde

01 de junho 2026 - 08:00

Transito pelas rampas já íngremes da saudade e logo reencontro uma autoestima que preenche parte de um campo onde proliferam vivências que me dão gáudio, no que concerne ao cosmos desportivo. Décadas já passadas em que o desporto marcava uma presença inquestionável em jovens que sonhavam, neste caso, com o jogo da bola. No velho estádio municipal de Beja o futebol ganhava enormes dimensões a uma juventude que tantas vezes fugia da escola para assistir a um treino do Desportivo. Conferir o malabarismo dos “craques” era uma bênção para a rapaziada. Os dribles, os chutos à baliza, o ensaiar uma jogada, ou trabalhar a finalização, bem como a setor defensivo, a que acresce a aplicação dos atletas no pelado, após uma jornada de trabalho, formavam uma sinfonia platónica que a todos agradava. Desses recuados tempos guardo imagens de jogadores de renome regionais e nacionais. Não sendo a minha ideia individualizar homens que pisaram o velho balneário do “tio” Firmino, que fora um dos antigos jogadores de eleição do Luso, trago hoje à estampa o velho capitão, isto é, o Marcelino Lança. Um homem que passou uma vida atrás do balcão do extinto Café Cortiço, servindo de pronto o mais incauto cliente. O trabalho nunca o fustigou e as larachas diárias eram tónicas para as tarefas do seu dia a dia. Havia família para sustentar, logo as mais-valias recolhidas no Cortiço assumiam-se como bens aventurados. Os dinheiros do futebol eram uma pequena achega. Classe era coisa que não faltava ao Marcelino e houve clubes de renome que estiveram interessados na sua aquisição. O Benfica foi um deles. No ano de 1950, o então craque de Beja, ainda jovem, foi assediado pelo Benfica, treinado por Ted Smith, e já com o cachet alinhavado o seu pai não autorizou a transferência para Lisboa, alegando que o rapaz lhe fazia falta no famoso Café Cortiço, uma bíblia que outrora se afirmou como um ícone aprazível para uma profícua recolha de assuntos desportivos. Em 1955, o valoroso Marcelino esteve ao serviço da seleção militar, em que proliferavam jogadores de craveira nacional e internacional, sendo os casos de Hernâni, Germano, Costa Pereira, Vital, Faia, Pereira da Silva, de entre outros. O rapaz de Beja, além de maestro e malabarista com a bola, era também um jogador com selo de goleador. Vê-lo jogar era um delírio. Marcou gerações e tornou-se inesquecível em toda a região. Marcelino era sobrinho de Mário Montez, uma figura de proa que brilhou ao serviço do Vitória de Setúbal. Sabe-se que após o seu adeus ao Desportivo, grémio em que deixou história, a estrela bejense ainda deu uma ajuda no Atlético Clube de Brinches. Homem sério e amigo do seu amigo, Marcelino, o velho capitão, era um simples cidadão que a urbe bejense sempre admirou, restando lembrar a arte do seu bem jogar, ah, e dos belíssimos pastéis de bacalhau que diariamente servia, tal como o seu irmão Caetano, a uma fiel clientela que fazia do Café Cortiço o seu recanto de eleição.  

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