A pressão é como um abismo. É assustadora, mas atrai, é pesada, mas quem a vive só já sabe andar com ela às costas, de dia e de noite, do acordar ao adormecer, da insónia ao cansaço. Há desgraçados que não sabem viver sem ela, mesmo que a queiram sacudir, mesmo que a tentem matar com remédios caseiros, com livros de autoajuda, com consultas com especialistas do comportamento humano, com medicamentos sujeitos a receita médica, a pressão não desaparece, a pressão faz parte do corpo, como os ossos, o sangue, as emoções, o pensamento. Tirar a pressão de dentro da existência é a mesma coisa que separar a pele da carne. Quem já experimentou sabe o que dói. Há esse mito urbano de que quem vive no campo está protegido pelo canto dos passarinhos e pela calma da paisagem. Também aqui, onde se diz que o tempo é mais vagaroso e se saboreia o horizonte, vivem seres absolutamente inquietos e incapazes de perceber o romantismo do gerúndio. Há penantes que venderam as horas vagas ao diabo, entregaram a paz interior de mão beijada, desdobram-se em ocupações, assumem responsabilidades sem conta e sem fim, tratam de múltiplos assuntos em simultâneo, tentam não os misturar dentro de uma mente que se alimenta da ilusão de que consegue controlar tudo, que só se preenche quando já não sobra tempo para mais nada a não ser aflição e medo de não conseguir ser sobre-humano. Quando se transcende o razoável perde-se o equilíbrio e perde-se o discernimento. A família torna-se secundária, os amigos escasseiam, o que conta é estar disponível para fazer tudo o que nos pedem e apresentar tudo aquilo que não nos pedem. Não há limites, não há noção da inutilidade, não há noção do perigo. Há apenas uma vertigem. A pressão é o abismo onde moram as noites em branco.