O tempo vai passando, a dor vai passando, a memória do que eu fui vai enfraquecendo, a minha morte só já está entre estes muros, envolta nesta densa névoa do passado, tudo tem um preceito. Houve um tempo em que a minha morte estava viva dentro do teu peito, dentro dos cheiros, da roupa que eu deixei nas gavetas, da cama onde tu vinhas ter comigo aos domingos de manhã, do meu cão que agora é teu, tantas saudades que eu tenho do cão, se eu soubesse que ia estar tão sozinha tinha-o trazido comigo, dentro da cozinha, do quarto, da casa toda, qualquer lembrança te fazia chorar, a minha voz que parecia que se ouvia, e ouvia-se, tu é que não a sabias escutar, os vivos não sabem ouvir a voz dos mortos nos corredores das casas, a minha presença que parecia que se sentia, e sentia-se, tu é que não me vias, os vivos não sabem ver os mortos sentados à mesa. Vinhas ver-me todos os dias, lembro-me de vires de manhã e à tarde, ainda o meu corpo se parecia comigo, depois duas vezes por semana, depois de semana a semana, já o meu corpo não se parecia nada comigo, depois de mês a mês, agora só quando há funerais é que me vens ver. A vida anima-te, ainda bem que é assim, certamente que o meu cheiro já desapareceu, as gavetas já não têm a minha roupa, os teus filhos é que vão deitar-se contigo aos domingos de manhã, gostava tanto de saber se o meu cão ainda é vivo, se for fala-lhe de mim que ele há de dar ao rabo de contente. Quando ele morrer, vem enterrá-lo a meu lado, assim não fico tão sozinha. Quando há um funeral, aproveitas e vens ver-me, ficas um bocadinho ali ao pé de mim, olhas para a minha fotografia e para o meu nome, assomam duas lágrimas e depois vais-te embora. Só voltas quando houver outro funeral.