Diário do Alentejo

Seis cigarros
Opinião

Seis cigarros

Vítor Encarnação

10 de maio 2026 - 08:00

Quando acabávamos de almoçar e a incandescência da luz acendia o canto das cigarras e o céu fervia de azul, o meu avô ia sentar-se num muro de pedra à sombra da parreira. Acendia um cigarro, ajeitava a boina e ali ficava, estático, a olhar para a horta que fervia de verde. Achava eu que o meu avô olhava para a horta, eu ainda não sabia que era pela porta de rede da horta que o meu avô entrava dentro dele e, digo-o eu agora, pensava na vida. Pensar na vida, sei-o agora, requer silêncio. Eu ficava à porta da cozinha, escondido para ele não me ver, atento, pasmado, tentando descobrir a razão para tal mania. Se eu já tivesse relógio saberia que o meu avô estava naquele estado de preguiça durante meia hora e que três cigarros Provisórios depois voltava a ser o homem que, com os seus olhos quase azuis, quase verdes, arregaçava as mangas, tirava água do poço, regava a horta, carregava fardos de palha, limpava a arramada, matava um porco, rachava lenha e enfrentava a vida sem pensar. Quando acabávamos de jantar e a luz se afogava no chão, o meu avô ia-se sentar à soleira da porta à sombra da lua. Acendia um cigarro, ajeitava a boina e ali ficava, parado, a olhar para o céu que fervia de estrelas. Se eu já soubesse ver as horas saberia que o meu avô fumava um cigarro a cada dez minutos. Eu não sabia ainda que o meu avô, e talvez todos os outros avôs do mundo, viviam e vivem entre a horta e o céu, entre a terra palpável e o infinito inatingível, entre o pó da terra e o pó das estrelas. Um dia, depois de almoço e depois de jantar, o meu avô disse-me para eu me sentar com ele debaixo da parreira e debaixo da lua. Foi aí, nesses dois sítios, um de luz e outro de trevas, mesmo sem saber ver as horas, que aprendi a perceber o tempo. 

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