Diário do Alentejo

Manel Trincalhetas: um dos símbolos desportivos  de antigamente
Opinião

Manel Trincalhetas: um dos símbolos desportivos de antigamente

José Saúde

10 de maio 2026 - 08:00

Não o vi jogar, mas a sua história é pautada pela delicadeza de um homem que muito contribuiu para a evolução do futebol regional. Conheci-o como treinador, onde deixou excelentes indicações. Como guarda-redes deixou uma escola para gerações futuras sempre o recordarem. Elegante a sair dos postes, equipamento que lhe assentava no corpo como uma luva, sempre de joelheiras e boné, o antigo atleta fez furor ao largo de várias épocas ao serviço do Luso Sporting Clube. Manuel Joaquim Trincalhetas nasceu a 25 de outubro de 1914, em Beja, e foi mestre de uma estirpe de vindoiros guarda-redes em que o talento proliferava. Homem bom, de sorriso aberto e que nunca virava a cara à luta, Manel Trincalhetas soltava exímios saberes no talentoso universo futebolístico, iniciando-se em jogos de rua com uma bola de trapos. O Luso foi uma das suas grandes paixões. Mas, em final de carreira usufruiu de uma passagem pelo Despertar. Na minha obra Glórias do Passado I deixou explícito a razão de tal experiência: “Fui para o Despertar numa altura em que tive um desaguisado com o Gil. O guarda-redes do Despertar era o Zé Cuco, um belíssimo guardião, mas muito medroso, e eu, aos poucos, fui-me impondo e passei a titular”. Após terminar a refulgente carreira como jogador e levando consigo o coração cheio das tardes de excelentes reputações que proporcionaram ao clã desportivo bejense gáudios de emoção, o “tio” Manel foi um distinto treinador e também massagista. Foi um dos primeiros treinadores portugueses diplomados, tirando o curso no ano de 1950. Sob a sua orientação técnica o Desportivo de Beja disputou a II divisão nacional na época de 1962/63, tendo antes viajado pelo Sporting de Cuba e Ferreira do Alentejo. “Em Ferreira estive como treinador numa equipa que se sagrou campeã na antiga Mocidade Portuguesa e que fundou o Sporting Ferreirense. Treinávamos num campo de barro, sem condições, mas sob a grande influência do padre Alcobia o clube cresceu e seguiu em frente”. Essa equipa defrontou o Liceu de Beja e o título foi atribuído pelo maior número de cantos apontados, sendo o resultado final 0-0. Manel Trincalhetas abordava a tática do WM com frequência: “O futebol perdeu beleza. As táticas são demasiado defensivas. Joga-se com um avançado e a meta dos treinadores é que a sua equipa não sofra golos. No meu tempo sofríamos golos, mas também marcávamos. O golo é a beleza do futebol”. E era assim que Manel Trincalhetas, um dos grandes instrutores do futebol de então, expunha as suas eficazes ideias em prol de uma modalidade que há muito reclama idoneidade. Sim, porque a “máquina” do futebol, fazedor de sonhos, enveredou por caminhos, quiçá, impensáveis, em que a austeridade foi chão que já deu uvas. Os valores envolvidos são astronómicos e o progredir do jogo envolveu-se num emaranhado mundo de negócios, em que se multiplica o secretismo. Longe vão os tempos em que se jogava à bola a troco de um petisco e nada se pedia em troca pela permuta de sublimes esforços físicos.

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