Diário do Alentejo

Lugares  com história
Opinião

Lugares com história

José Saúde

04 de maio 2026 - 08:00

Beja, urbe onde as memórias de lugares com história tombam em catadupa, esconde inteligíveis recantos que leva o cidadão comum ao encontro de sítios que outrora marcaram gerações e que fizeram do fenómeno desportivo um hino à liberdade física. A cidade deparou-se, em 1906, com a chegada do chamado “vício do jogo da bola” e desse fabuloso grupo de incitadores, numa modalidade que assinalava os seus princípios, destacavam-se Frederico Durão Ferreira, Mário Durão de Sá Ferreira, José Campos Penedo, Manuel Gomes Palma, José Gomes Palma, José Cardoso, Joaquim Vilhena Freire de Andrade, Francisco Nobre Guedes, Valentim Bravo, Francisco Palma Vargas, Manuel de Castro e Brito de Almeida, Francisco de Castro e Sousa Cunha, José Carvalho e os seus irmãos Carlos e Albino. O grupo, detentor de uma bola de catechu, reunia-se para treinar numa eira pertencente ao pai de Joaquim Vilhena, lá para as bandas da estação dos caminhos de ferro, e divertiam-se com a novidade. Nesses tempos havia um outro campo improvisado no largo da Conceição, mas este permanentemente vigiado pelos polícias de giro. As balizas eram assinaladas por duas pedras e os atropelos às leis de jogo acometidas por sistemáticas infrações. E foi assim que o futebol nasceu na velha Pax Julia. Seguiu-se a formação de clubes, ou de grupos, sendo os espaços mais utilizados os antigos terreiros onde se debulhavam os cereais. Nos princípios de 1930, e quando o futebol se deparava com uma excecional atividade, no dia 1 de fevereiro de 1931 inaugurou-se o Estádio Condessa d’Avilez. A novel infraestrutura trouxe outras nuances competitivas e por lá se fizeram maravilhosos derbies. O Luso, fundado a 16 de junho de 1916, assumiu o Condessa d’Avilez como o seu próprio recinto e foi naquele espaço que subscreveu páginas de grande reputação. Com a dinâmica futebolística a evoluir, a 27 de abril de 1953 foi inaugurado o Estádio Municipal Eng. José Frederico Ulrich, sendo que a autarquia, mais tarde, conferiu-lhe o nome de Dr. Flávio dos Santos. Pelo meio desta maratona ficou ainda o campo do Liceu de Beja, no qual o Desportivo também atuou. Somos de uma época em que assistimos ao refulgente desenvolvimento futebolístico e de multidões de criaturas que sequiosamente assistiam a fascinantes exibições do Desportivo de Beja. Hoje, o futebol concentra-se no Complexo Desportivo Fernando Mamede, bem como o atletismo, sendo que ali existem também dois campos sintéticos e um relvado, o que nos transporta para exequíveis memórias de lugares que indicam a data de 27 de setembro de 1992 quando houve a transição do Dr. Flávio dos Santos para o presente complexo, num jogo que opôs a formação local ao Silves. Lugares com histórias onde as memórias se multiplicam, ficando o registo de uma multidão que na pretérita sexta-feira, noite de 24 para 25, assistiram ao vivo e a cores à celebração do 52.º aniversário do 25 de Abril, enchendo aquele recinto para ouvir os Xutos & Pontapés e o cantor bejense Fernando Pardal. Parabéns à autarquia bejense pela feliz ideia de voltar a dar vida àquele velhinho estádio, sendo que um novo projeto se prepara para revivermos momentos de gáudio num campo onde as alegrias, e também algumas tristezas, fizeram parte do quotidiano “paxjuliano”.

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