Diário do Alentejo

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Vítor Encarnação

26 de abril 2026 - 08:00

E de repente a televisão calou-se. Quando a televisão se desliga a meio do dia, há uma surdez brusca, a morte súbita de uma rotina. Digo calou-se, porque a maior parte das vezes a televisão não se vê, ouve-se, é um som que ecoa pelas divisões da casa e vai atrás de mim até eu deixar de perceber o que é dito. Há uma televisão na cozinha, entro em casa, ligo-a e ela ali fica a dizer palavras que eu raramente retenho, as que me lembro, apesar de desarticuladas, falam de guerra, do preço das coisas, de futebol, de política. No quarto, lá o fundo da casa, já só restam murmúrios. Não sei por que razão ligo a televisão e não a vejo. Talvez porque precise de vozes que me façam companhia, sei lá. A minha televisão da cozinha é moderna, acho eu, tem um temporizador que a desliga se eu me esquecer de calar as vozes ao fim de seis horas. Nunca tinha acontecido. Por norma, quando a mesma entrevista na bomba de gasolina passa pela quinta vez, já eu a tenho desligado, ou porque saio de casa, ou porque me vou deitar. Pela primeira vez, de repente, enquanto eu ia da sala para a casa de banho, a televisão calou-se. Nesse instante, a quietude tomou conta da casa toda, do chão ao teto a casa ficou inundada de silêncio, e eu comecei a ouvir a casa, ao início apenas murmúrios, lá muito ao fundo, depois vozes mais próximas, pareceu-me que eram das pessoas que aqui viveram comigo uma vida inteira e o temporizador da morte veio buscar, o ranger da madeira, o respirar do meu cão, um pássaro na laranjeira, uma mosca a bater no vidro da janela, o vento a tentar entrar, o meu gato a tentar sair, o frigorífico a ronronar. Deixei de ligar a televisão quando entro em casa. Prefiro ouvir as notícias do silêncio. 

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