Diário do Alentejo

O mundo  desportivo  das crianças
Opinião

O mundo desportivo das crianças

José Saúde

26 de abril 2026 - 08:00

O mundo desportivo das crianças é simplesmente deslumbrante! Os “putos”, qual “bando de pardais à solta”, arquitetam fantasias, falam dos seus ídolos, elaboram imaginações, constroem núcleos de amigos, discutem os pormenores do desporto, sentem-se craques, não obstante as suas tenras idades e atuam em clubes ou associações. Para que a simultaneidade do acontecimento seja perfeita envergam equipamentos de marca, botas e bolas da última geração, têm técnicos qualificados, de entre outros adornos que os deixam de todo extasiados, principalmente, pelas qualidades das infraestruturas que por aí proliferam. Numa reflexão a um passado em que fui um dos seus atores, recordo outros tempos e dou por mim a viajar, a pé, para lugares onde a finalidade era um superabundante prélio. Transito pelos dóceis anitos de existência e revejo os desafios entre os bairros, ou numa visita a Santa Clara do Louredo – Boavista como sempre fora conhecida – ou a Vale de Vargo, freguesia situada nas proximidades da minha Aldeia Nova de São Bento, sendo que evoco, com enfâse, os duelos futebolísticos travados sob as chuvadas intensas de um inverno rigoroso, ou pela canícula de um verão bastante quente, obstáculos que foram por essa juventude de outrora completamente vencidos. Os “estádios” eram pequenos campos em terra batida, duas pedras que sinalizavam as balizas e a tática era tudo ao monte e fé em Deus. Com uma bola de trapos debaixo do braço, roupa domingueira, sapatos finos, para aqueles que os possuíam, e lá partia a moçada ruas fora. Agora, ao rever essas configurações do antigamente, detenho-me perante novas realidades, em que o mundo desportivo galgou fronteiras tornando-se num entretenimento universal. Parafraseando uma estrofe do fado “Os Putos” de Carlos do Carmo que diz: “Uma bola de pano, num charco/ Um sorriso traquina, um chuto/ Na ladeira a correr, um arco/ O céu no olhar, dum puto”. Sim, os “putos” sempre enterneceram o meu ego. Comove-me a sua jovialidade e crença desportiva. Correr atrás de uma bola transporta-os para um desejo infinito. Revejo imagens que me conduzem para os tempos de criança, sendo o sonho um universo fantástico. A bola alimentava uma fantasia literalmente infindável. Nós, ansiosos pelos chutos na trapeira, cruzávamos as ruas do povoado, os seus bairros e pedíamos despique aos parceiros que não abdicavam de uma boa jogatana. Acabávamos aos 10, mudávamos de campo aos cinco e no final os vencedores deliravam com o feito alcançado. Os espaços livres eram notáveis palcos para uma peleja domingueira. Alguns descalços, não obstante as irregularidades do terreno e as adversidades físicas que o mesmo abarcava, vidros, pedras e cardos eram assíduos companheiros, outros cujas meias solas dos sapatos, ou botas, propunham mais uma ida ao sapateiro, deixavam patente que esses princípios desportivos faziam prever um amanhã auspicioso. Depois vinha a competição oficial. Muitos ficavam pelo caminho, é certo, outros vingavam num cosmos sempre hábil em surpresas. Aliás, os paradigmas por ora conhecidos transporta-nos para quiméricas decisões, em que as sentenças de alguns mentores assolam angélicos padrões do mundo desportivo das crianças.

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