Diário do Alentejo

Estar vivo ou estar morto
Opinião

Estar vivo ou estar morto

Vítor Encarnação

19 de abril 2026 - 08:00

Não conhecendo eu a morte por dentro, mas imaginando que seja uma coisa vazia, parece-me que pelo que vejo em mim e nos meus companheiros desta contemporaneidade e desta circunstância, às vezes, tantas vezes, estar vivo é como estar morto. Poucas diferenças se vislumbram entre a letargia dos que cá estão e o falecimento. Queremos viver mais tempo, quem nos dera a eternidade, mas raramente sabemos fazer uso desse tempo deixando marcas positivas, estruturantes, em nós e nos outros. Passamos pela vida com o passado por resolver, interpretamos apressadamente o presente, andamos à procura de um pequeno promontório para onde subimos e acenamos e gritamos na esperança que deem por nós, achamos que a utopia do futuro é que nos irá salvar, mas depois descobrimos que não há milagres, descobrimos que gastámos o tempo em coisas menores. Para as pessoas inabitadas, mais tempo é tempo perdido, para as pessoas plenas, pouco tempo pode ser uma infinitude. No fundo, tudo se resume à superioridade do ato, à profundidade do momento. Um dia pode valer por mil dias, uma noite pode valer por uma vida inteira. Conheço mortos que viveram ardentemente, souberam conduzir as suas existências de uma forma intensa e aproveitaram bem o tempo que cá andaram. E conheço vivos que já morreram há muito tempo, andam por cá respirando, o coração a bater, sem alma, só os ossos. Serem enterrados apenas quando forem velhos é uma mera questão formal. Conhecendo eu a vida por dentro, sabendo que é amiúde uma coisa vazia, parece-me que pelo que vejo em mim e nos outros, às vezes, tantas vezes, estar vivo é apenas ir adiando a morte todos os dias. A esperança de vida aumentou, mas estar mais morto do que vivo é um hábito terrível.

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