Hoje decidi arrumar a minha memória. Olhei para dentro da minha cabeça e vi que havia muitas recordações desarrumadas, lembranças confusas, reminiscências espalhadas pelo chão do pensamento. Pensei que era fácil como arrumar uma estante de livros por ordem alfabética, pensei que a memória era feita de títulos e temas, de partes em que pudemos pegar e escolher o sítio onde as pôr dentro do juízo. Esta fica mais à frente, aquela mais atrás, vou-me desfazer desta. Mas não é fácil, a memória não se divide, a memória é um rio sempre a correr que liga a nascente do passado à foz do presente. A memória é o peso todo da água do rio. Concluí que de fora, meramente através do ato de julgar, de nos julgarmos, não se consegue arrumar a memória, é preciso entrar dentro da cabeça, é preciso admitir que nem tudo é limpo, nem da nossa parte, nem da parte dos outros. Há coisas, por erros nossos, por razões alheias, que lá estão e não deviam estar, e há outras que são perfeitas e imorredoiras, mas as memórias são mesmo assim, guardam tudo o que seja entalhado pelas emoções, quer sejam boas, quer sejam más. Entrei dentro da cabeça, as memórias não se calavam, umas pediam-me desculpa, outras abraçavam-me, outras fugiam de mim, umas alicerçadas na verdade, na honra, na lealdade, no amor, outras, perdidas na falta de raciocínio, andavam por ali à espera de encontrarem razões para existirem. A estas eu não soube responder, nunca consegui perceber porque guardamos nós memórias daquilo que não importa. Quando já tinha a tarefa mais ou menos concluída, descobri algumas memórias clamando por vingança. Deitei-as fora. Se não tivermos cuidado, são estas as memórias que nos matam por dentro.