Pai, já recebi o teste, desde que o fiz que estou com medo de o receber, ansiei que a professora o perdesse, ou ele ardesse, já desconfiava que a nota ia ser esta, assim que o acabei comecei logo a chorar, tenho um medo que adivinha. Quando a professora entregou os testes quis ser o último a recebê-lo, quis que a minha turma tivesse milhões de alunos e eu ficasse para o fim, quis que acontecesse qualquer coisa sobrenatural, para adiar a mágoa, para retardar o pânico. Quando olhei para a nota pensei em inventar uma história, pensei em dizer-te que a professora demora muito a ver os testes, que só o recebo no próximo período, que a professora vai casar e não tem cabeça para mais nada. Fiquei a vinte por cento do que tu exiges, a nota a vermelho é já o sangue que eu hei de deitar do lábio, talvez se a professora soubesse que a caneta dela é da cor do sangue dos meus lábios ela escrevesse a nota a verde, talvez assim houvesse mais esperança de tu não me bateres e não me chamares nomes. Pai, ao lado da nota há um espaço para os encarregados de educação assinarem, sei que quando assinares o teste já me terás magoado o rosto, o braço e tudo o que eu sinto, já terás destruído a minha estima mais uma vez, cada vez é mais difícil reerguer-me, tenho um medo que adivinha. Pai, vou agora para casa, imagina tu que até imagino que seria bom magoar-me, perder-me, levarem-me, imagina tu que até tudo isso não me parece tão assustador como chegar a casa e ter de te mostrar o teste. Esta semana faço mais três, a percentagem que tu queres que eu tire arde-me no estômago. Pai, afinal quanto valho eu? Quanto preciso eu de valer para tu me amares? Eu pensava que o amor não se media em percentagens.