Tenho no meu quintal duas árvores muito diferentes. Não os seus princípios, terra, raízes, tronco, verticalidade, água e sol, mas sim a forma como cada uma atravessa as estações do tempo. A laranjeira ignora o outono, resiste ao vento, mantém o vestido verde, às vezes, por estarem escondidas, ou por estarem demasiado altas, aguenta duas ou três laranjas velhas já as novas ganham cor. As laranjeiras não se despem, as laranjeiras são árvores perpétuas que guardam pássaros de noite. O pereiro verga-se ao outono, não resiste ao vento, despe-se todo, não consegue esconder nada, às vezes um pêro agarra-se aos ossos dos ramos, mas cai, nunca, ao contrário das laranjas, um pêro se encontrou na árvore com outra geração de pêros. Os pereiros são tábuas rasas, recomeçam tudo outra vez, os pereiros são árvores intermitentes que guardam noites sem pássaros. Quando chega a primavera, a laranjeira inventa flores e abelhas, o pereiro inventa-se todo, repõe folhas e flores e também abelhas. Acho que as abelhas ficam a voar dentro do tronco e fazem mel das flores que não existem aos nossos olhos, apenas existem dentro dos sonhos de quem se desnuda totalmente, sejam árvores, sejam pessoas. A laranjeira também é poeta, mas escreve poemas de luz, poemas que não se despojam de cor, poemas que são redondos como laranjas doces. O pereiro é outro género de poeta, escreve poemas que mudam, que se despem, que existem frios e solitários à superfície do osso, que têm de ir novamente à raiz do significado para se erguerem e vestirem lentamente até darem outra vez flor e depois fruto. Gosto muito da maneira de ser da minha laranjeira, mas confesso que tenho um fraquinho pelo meu pereiro.