Diário do Alentejo

Casas velhas
Opinião

Casas velhas

Vítor Encarnação

23 de março 2026 - 08:00

As casas velhas vão morrendo devagarinho, às vezes sozinhas, às vezes lado a lado, às vezes ruas inteiras. As casas precisam de pessoas, sem pessoas dentro delas as casas são sepulturas verticais à beira dos passeios. As pessoas são os filhos das casas, quando eles partem as casas choram em silêncio. Nada é mais triste do que ver uma casa a extinguir-se, a perder a pele e a carne das paredes, os ossos dos pilares à mostra, as janelas cegas, as portas mudas, os quartos frios, a cozinha morta, o quintal moribundo. Tiraram as camas, tiraram as vozes, tiraram os passos, só o silêncio e o pó vivem nas casas velhas, tudo o resto feneceu. As pessoas deixaram a casa para trás, a casa tornou-se pequena, demasiado fria, ou demasiado quente, ou demasiado simples, ou demasiado longe. O carteiro deixou de ir àquela casa sozinha, àquelas lado a lado, a ruas inteiras, já não mora lá ninguém, as pessoas foram-se embora, abandonaram a sua mãe de taipa. Às vezes morrem sozinhas com uma tabuleta cravada no peito, baixinhas, definhando, apertadas entre duas moradias novas, ali ficam presas, mortiças, esfoladas, destoando da brancura e das barras azuis, das luzidias portas de alumínio, dos aparelhos de ar condicionado. Às vezes morrem lado a lado, partilhando mágoas, partilhando telhas partidas, partilhando memórias de filhos que não querem saber delas. Encostam-se uma à outra, quando caírem caem para dentro uma da outra, assim aproveitam para não morrerem sozinhas. Às vezes morrem ruas inteiras de casas, de uma ponta à outra, de um lado e do outro, de onde quer que se venha sé se sente desconsolo, para onde quer que se olhe só se vê solidão. Muitas casas velhas juntas é o nome coletivo de solidão. 

Comentários