Diário do Alentejo

O voo  dos pombos--correio
Opinião

O voo dos pombos--correio

José Saúde

22 de março 2026 - 08:00

O voo dos pombos-correios de regresso ao pombal, embora saibamos que as distâncias percorridas no horizonte sejam por vezes enormes, é uma causa que leva literalmente o mundo dos columbófilos ao êxtase. Numa investigação pessoal, embora primária, às componentes desportivas que sempre marcaram a columbofilia, esbarramos no misterioso mundo dos pombos-correios, em que a necessidade em compreender o rumo dos voos é uma incógnita. Por isso, a incursão que ousemos atentar sobre a essência deste enigma é, tão-só, uma curiosidade imaginária sobre a aptidão de orientação do seu voar nos infinitos céus ao longo dos concursos. Consta-se que estas aves se assumiram como protagonistas de diversos episódios da história da humanidade. Cruzam espaços aéreos, lutam contra as adversidades das aves de rapina e foram outrora copiosos mensageiros de notícias em plenos campos de batalhas e, nesses tempos da guerra, assumiam-se como exímios carteiros na permuta de informações. A sua existência remete-nos para os 4000 anos a/Cristo e a sua origem reporta-se ao antigo Egipto. Na Europa, foi a Bélgica, expressam os historiadores, que exerceu um papel determinante para a sua vulgarização como distinto atleta em campeonatos de fundo, meio fundo e velocidade. O columbófilo soube, paulatinamente, sugar-lhes evidentes competências e a família columbófila expandiu-se. Defendem alguns dos seus praticantes que a modalidade, noutros períodos, se colocou num dos lugares do pódio nacional, contudo, esse chamar a si tão presunçosa honra é, quiçá, discutível, daí que não entremos por caminhos que não dominamos. Admitamos que sim, apenas. Mas as conversas com as peripécias dos pombos-correios estendem-se com o evoluir de cada solta. O pequeníssimo cérebro dos alados transfere-nos para o mundo das interrogações. Ninguém descobriu, mesmo os modernos sistemas em controlar as latitudes do seu voar, as coordenadas traçadas por um órgão pequeníssimo e que lhes transmite o profícuo poder da direção a seguir. Numa solta constata-se que, antes de tomarem a sua direção, esvoaçam, em grupo, depois lá seguem o seu rumo. Contudo, a sua entrada nos pombais nem sempre é igual. Varia consoante a orientação que cada pombo traçou. Os ventos, as chuvas ou o calor, têm, obviamente, a sua influência. Assim, perante as mais variadas tempestades, atravessam a vastidão dos quilómetros e regressam prodigiosamente ao seu pombal. Pelo meio da maratona, algumas longas, a sua fértil inteligência permite-lhes ludibriar os mais dolorosos obstáculos. Reconhece-se que os tempos pelos quais passamos são outros. Alguns dos clássicos columbófilos vão jogando a toalha ao chão e a juventude dispersa-se por outros passatempos. Presentemente a columbofilia regesse-se pela modernização, ou seja, as soltas e as chegadas são cronometradas ao ínfimo pormenor. Os registos são computorizados e até um simples telemóvel oferece condições de trabalho. O columbófilo labuta no quotidiano com a colónia, mas a sua missão está mais simplificada e possui agora outros adornos. Hoje, a base da alimentação do pombo-correio tem outras nuances e envolve-se noutros adornos. Preservo, porém, a convicção de que o mistério de orientação do pombo-correio permanece como um autêntico sigilo para o criador de uma modalidade que tem perdido algumas das suas colossais referências.    

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