Diário do Alentejo

Saudades
Opinião

Saudades

Vítor Encarnação

15 de março 2026 - 08:00

Não faz mal termos saudades, bem podem os cerebrais dizer que não nos podemos prender ao passado, bem podem os racionais afirmar que só o futuro interessa, eu não me importo de ser frágil e sentir falta de tanta coisa que já passou e de tanta gente que já morreu. Essas coisas e essas pessoas que já não voltam vivem ainda em mim, viverão em mim para sempre. Nenhuma racionalidade me impedirá de, sempre que me apetecer, revisitar tudo aquilo que me construiu e me definiu. Os cemitérios, os sótãos, as fotografias, muitas delas a preto e branco, são sítios e são tempos que eu frequento assiduamente. Quando a vida me aborrece, quando não sei o que hei de fazer, fecho a porta da realidade e vou-me embora, vou pelas traseiras do tempo, as traseiras do tempo têm quintais onde floresce a lembrança. Entretenho-me com as conversas, as memórias, os serões, sou quase sempre pequeno, uma criança, um moço de cabelos encaracolados correndo de sol a sol, sentado a uma mesa cheia de gente, deitado ouvindo vozes até adormecer. E por lá me demoro, apanho o riso do meu pai aqui, o beijo da minha mãe ali, o regaço da minha avó acolá, os gritos felizes dos meus primos além, às vezes apanho nostalgia, apanho tristeza, junto mágoa, carrego lágrimas, nem sempre a viagem é boa, mas a maior parte das vezes apanho afetos, apanho abraços, junto alegria, carrego felicidade. Lá é que se está bem, antes de eu ser o que agora sou, antes destes anos todos que agora tenho, antes de morrerem os que me deram carne e identidade. Há dias e noites em que não tenho vontade nenhuma de regressar ao presente, muito menos ao futuro, confesso que não tenho grande curiosidade pelo futuro, acho que sou melhor a ter saudades do que a fazer planos. 

Comentários