Confrontado com mensagens que nos vão chegando, sendo que muitas delas nos levam a realidades que nos deixam completamente atónicos, soubemos, em tempos recentes, que morreu o Manuel Rações. O seu óbito ocorreu no passado dia 11 de fevereiro, em Serpa, sendo vítima de um AVC hemorrágico, cujo derrame cerebral foi-lhe fatal. Neste contexto, cruzo territórios sul-alentejanos, recordo clássicos futebolistas e a minha imperecível sensibilidade conduz-me à cidade de Serpa. Naquela comarca deram à luz génios que trataram a esfera saltitante com habilidade e uma natural agilidade. Cito os famosos irmãos gémeos Rações, Manuel e o Francisco, nascidos a 24 de janeiro de 1943, que brilharam ao serviço do FC Serpa. Todavia, debruçar-me-ei neste sobre o Manel, um amigo que agora nos deixou. Os primeiros passos futebolísticos foram dados em jogos de rua entre grupos de moços que disputavam amistosos desafios. Mais tarde o seu destino foi o clube da terra onde foi protagonista de uma carreira interessante. Escalpelizando os princípios da década de 1960, século passado, concluímos que os manos Rações iniciaram a sua atividade desportiva oficial em 1961. Antes o FC Serpa, sob o comando diretivo de João Diogo Cano, roçou o céu. Na época de 1956/1957 sagrou-se campeão nacional da III divisão e os cânticos da euforia deixaram um rastilho positivo numa juventude que sonhava representar o deslumbrante emblema. O Manuel evocava no livro Bola de trapos volume II, a realidade sentida nesses tempos: “Depois daqueles anos do senhor João Diogo, em que o clube conheceu grandes momentos, apareceram muitos jogadores que pretendiam jogar no Serpa. Os treinos eram às sete da manhã e os duches com água fria. Levávamos toda a semana a limparmo-nos com a mesma toalha. Um dia, depois do treino matinal, o falecido Zé Miguel não teve tempo de tomar banho porque tinha que entrar na oficina, só que quando se preparava para sair do campo o treinador Di Paola apercebeu-se e toca a mandá-lo para o banho. Ele obedeceu, claro. Hoje, é impensável uma coisa destas. Mas nesse tempo era assim. Havia respeito”. O futebol de antigamente é repleto de crónicas encantadoras. Vejamos esta situação passada em 1968. “Fomos jogar pela seleção da Associação de Futebol de Beja contra a seleção do Algarve, sendo que o jogo se realizou em Faro e o nosso treinador era o Manuel Trincalhetas. Nessa seleção estava o Manuel Baião, um defesa central que nesse tempo jogava no Desportivo. Chegámos no outro dia a Beja às oito horas da manhã e como éramos de Serpa apanhámos a automotora até à ponte do Guadiana, mas o caminho da ponte do Guadiana a Serpa foi feito a pé. Quem é que hoje fazia isto”. As histórias caíam em catadupa e o Manuel fechava com esta. “Na época de 1972/1973 já não estava inscrito na associação, mas aconteceu que o Ferreirense veio jogar a Serpa e eu joguei com o cartão do meu irmão. Lembro-me do Juan falar comigo como do meu irmão se tratasse. Não me desmanchei e respondia-lhe à letra”. Agora o Manuel partiu para a eternidade, ficam as memórias. Descansa em paz Manuel Rações. Até logo!