Está tudo dentro da cabeça, dizia o homem sentado na esplanada. Nada existe de facto, tudo depende do que o cérebro nos dita, nada há a não ser perceção, nomes que subjetivamente foram dados às coisas, géneros, convenções, ideias, tudo é uma construção absolutamente arbitrária que se transformou no lugar e no tempo que nós habitamos. Está tudo dentro da cabeça, o que nos ensinaram a sentir, a olhar, a pensar, a concluir, nada nas emoções, nada no raciocínio é puro e original, é apenas uma réplica de comportamentos e sensibilidades, uma multiplicação de um sistema, uma repetição de significados. As palavras e os números são meras invenções, quanto muito mapas para não nos perdermos neste mundo, nesta esplanada, nesta cabeça. Ponho-me a pensar se a dor, a da perda e a da carne, existe mesmo ou se nos foi ensinada, tal como se ensina uma língua. Ponho-me a pensar se a alegria e o riso são reais ou se foi assim que aprendemos desde pequenos a definir o reencontro, a amizade, o contentamento. Ponho-me a pensar que se as coisas tivessem os nomes ao contrário, que se a noite se chamasse dia e o dia se chamasse noite, o amor se chamasse ódio e o ódio se chamasse amor e a morte se chamasse vida e a vida se chamasse morte, seria tudo igual porque o que conta é o código criado e o resultado sistemático do seu uso. Aquela papoila é tão azul, aquele chão voa tão alto, aquele céu é tão fundo, aquela água é tão seca, o vento é tão escuro, a minha boca tem sete dedos a estalar palavras. Tudo o que não respeita a norma é estranho, a cabeça foi moldada para não aceitar bizarrias e por isso a vida é às vezes tão chata. É preciso arranjar um espaço para a arte dentro da cabeça.