Diário do Alentejo

No meu tempo
Opinião

No meu tempo

Vítor Encarnação

15 de fevereiro 2026 - 08:00

No meu tempo. Não me lembro quando comecei a usar esta expressão, definir um dia, sequer um ano, torna-se difícil, o contexto em que a utilizei pela primeira vez perde-se no emaranhado da memória. Certamente que houve uma razão para o dizer, talvez um cansaço, talvez o anseio de maturidade, os cabelos que esbranquiçavam, a barriga que arredondava, o mundo que mudava e eu já não o percebia, talvez no dia em que me chamaram de senhor pela primeira vez, que estranho foi chamarem-me de senhor, corri para casa, pus-me em frente ao espelho, eu não tinha cara de senhor, nem gestos de senhor, nem cara de senhor, nem mentalidade de senhor, achava eu, dizia-me o espelho, melhor, diziam-me os olhos que o miravam. Quando digo que no meu tempo é que era, estou a desvalorizar a minha existência no presente, estou a glorificar o passado e todas as suas circunstâncias, como se ele fosse muito melhor do que agora existe, como se fosse um paraíso que se perdeu e que eu perdi. Dizer no meu tempo é fino e notável, revela que já vivemos muito e que nada se compara ao que era. Para dar mais ênfase, é preciso dizê-lo com um tom paternalista. Mais uma vez o labirinto da memória a trair-nos, mais uma vez a querermos afirmar que lá atrás é que estava a virtude, a harmonia, a justiça, as pessoas boas e capazes. Dizer no meu tempo é uma afirmação do nosso desagrado perante a mudança, da nossa constante crítica às novas gerações, da nossa saudade de algo que se finou. Refugiamo-nos numa ideia, numa perceção, numa emoção, na inocência, no jovem que fomos e ainda queríamos ser. No meu tempo quer dizer regressar a um lugar etéreo, fantasiado, a um tempo que muitas vezes não prestou para nada.

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