Refeição Sem nos apercebermos, afogados em pressas, ansiosos ou dormentes, apenas comemos, bebemos e limpamos a boca ao guardanapo. Ao almoço e ao jantar, rotineiros, não fazemos mais do que mastigar e engolir para satisfazermos um instinto básico. A faca, o garfo, o copo, o prato e a comida são apenas partes de um hábito, peças que se juntam sem que entre elas exista qualquer espécie de emoção. Uma dentada na carne, outra nas batatas, um gole de vinho ou de água, os olhos na televisão ou no telemóvel, o corpo mal sentado, inquieto, depois o café, tudo isto em dez minutos, mesmo ao fim de semana. Deixámos de saber saborear, deixámos de ter tempo para sentirmos o paladar, os detalhes do tempero, a textura, a harmonia do aroma, o prazer da iguaria. Atiramos comida e bebida para o estômago e ele que desempenhe a função de nos manter vivos. Um destes dias senti a necessidade de quebrar este procedimento mecânico, pus a mesa a preceito, uma toalha branca, guardanapos de pano, um copo para a água, um copo para o vinho, os talheres e os pratos do serviço que está sempre guardado, o pão cortado em fatias finas num cestinho de verga, a garrafa de tinto aberta meia hora antes de começar a refeição, um queijo de cabra e uma rodelas de paio para entrada, só aqui demorei quase meia hora, o corpo bem sentado, sereno, uma luz suave, o silêncio aceso, a carne tenra, a desfazer-se na boca, o garfo em movimentos lentos, a boca enfeitiçada a mastigar lentamente, o vinho a beijar os lábios, depois a língua, o palato a ser outra vez o céu da boca, a faringe e o esófago a apreciarem o manjar, o estômago encantado com tanta delicadeza. Depois olhei para o fogo que ardia e depois comi a sobremesa, húmida, demorada e doce.