Diário do Alentejo

O último adeus de um campeão
Opinião

O último adeus de um campeão

José Saúde

08 de fevereiro 2026 - 08:00

Sabendo-se que a nossa existência se traduz em três compreensíveis patamares, ou seja, nascemos, crescemos e morremos, não deixa também de ser verdade que a morte é, afinal, o fim de uma meta cujos limites nos levam ao reino dos mortais. Fernando Mamede foi um atleta de excelência e as suas condições físicas transportaram-no para os mais altos patamares do atletismo mundial. Fomos inexoráveis amigos desde os nossos primórdios tempos de infância. Contigo partilhei balneários ou outros momentos em que o cosmo desportivo nos despertava imensuráveis prazeres. Fernando, mesmo já no reino da incomensurável e decidida tranquilidade, resta-nos, apenas, um mar de recordações que ficarão no baú que ambos então partilhámos ao longo das nossas vidas e que partirão connosco para o lugar onde, infelizmente, tu já estás. O último adeus de um campeão entrosou-se com momentos que, decididamente, jamais apagarei do meu coração. As tuas longas passadas em pistas por onde espalhaste delicadeza e brio jamais serão esquecidas por um mar de gentes que sempre contemplaram a tua arte na corrida. Sei que partiste com uma mágoa: uma medalha olímpica que ficou por conquistar. Mas ficou a certeza que foste um recordista de excelência e que no teu currículo ficasse escrito, em letras de ouro, um recorde mundial nos 10 mil metros num meeting que teve lugar a 2 de julho de 1984 em Estocolmo, Suécia, com o tempo 27:13.81. Nesse inesquecível e memorável dia suberizaste-te ao teu companheiro de equipa, Sporting Clube de Portugal, Carlos Lopes, e o mundo aplaudi-te. É evidente, tal como sempre o afirmaste, que o saudoso professor Moniz Pereira, figura incontornável na modalidade, e que o assumias inegavelmente como “pai”, teve o privilégio em te colocar nas altas esferas do atletismo mundial. O Edifício Saudade, em Carnide, Lisboa, tornou-se pequeno na passada sexta-feira, 30 de janeiro, para albergar um lote de pessoas que fizeram questão em marcar presença no teu último adeus. Frederico Varandas, presidente do clube do teu coração, Sporting, dirigiu-te palavras que, obviamente, retrataram a tua longa e leal passagem pela coletividade, bem como outras pessoas dos altos domínios na modalidade. Antigos companheiros das corridas, nomes sonantes do atletismo nacional, foram, num ato singelo e de delicadeza, prestar-te uma homenagem de todo merecida. Beja, tua urbe natal, no momento do teu último adeus, fez-se representar por este teu velho amigo, Zé Saúde, Eddie Branquinho, pelo presidente da edilidade bejense, Nuno Palma Ferro, e por Carlos Moedas, presidente da autarquia de Lisboa. Ah, também lá esteve o Carlos Lopes, e esposa, no sentido, quiçá, de recuperar uma amizade que, entretanto, arrefeceu. Foi bonito o seu humilde gesto. Reencontrei um amigo comum, João Laranjeira, jogador de futebol do Sporting e Benfica, internacional júnior e seleção A, onde recordou os tempos em que prestaram serviço militar e a forma como tu vivias aquelas peripécias militares, desde as botas aos momentos em que na carreira de tiro disparavas tiros ao alvo, mas de cabeça literalmente virada para o objetivo. Tudo isso foi recordado. Restam as extraordinárias lembranças e do nosso último, e recente, almoço na Trindade, na casa do nosso amigo José Góis. Até logo, Fernando Mamede.

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