Se eu não leio os livros validados pelo tempo, se não conheço outras realidades, outras perspetivas, outros credos, outras culturas, o que é que eu sei? Se eu regulo o meu conhecimento, a minha opinião e a minha capacidade de argumentação apenas pelas redes sociais, que robustez e profundidade tem a minha existência? Se eu me sentar apenas com os meus, se dissermos sempre que sim uns aos outros, se conspirarmos contra aqueles que não são como nós, que não se sentam onde nós nos sentamos, se nos alimentarmos das conclusões que nos foram ditadas pelo nosso partido, pela nossa ideologia, pelo nosso grupo mimético, de que forma me construo eu como um ser livre, dotado de autoconsciência, capacidade de autodeterminação, moralidade, ética e racionalidade? Se eu, no resguardo da minha mesa de café, respaldado nos meus semelhantes que pensam sempre como eu, escolher sempre um discurso azedo, sempre discordante, sempre destrutivo, que contributo dou eu para a minha comunidade? Se ao jantar eu for discriminatório, racista, xenófobo, se eu defender a violência, o total desrespeito pelos direitos humanos, que filhos estou eu a criar, que exemplos lhes transmito? Se me chegarem meia dúzia de palavras, se eu só conhecer meia dúzia de palavras, se não souber interpretar o que me rodeia, o que me dizem, que hipóteses tenho eu de não me deixar enganar? Se eu só tiver músculos e ódio dentro deles, se eu só tiver força bruta, como é que eu faço para sentir a beleza das palavras serenas? Se eu só conhecer a minha rua, a petrificação dos costumes, das conversas, da norma, se eu achar que aquele bocadinho de chão, e tudo o que nele vive, é o suficiente para eu ter razão, que verdade me aguarda?