Diário do Alentejo

O frio e o fogo
Opinião

O frio e o fogo

Vítor Encarnação

06 de janeiro 2026 - 08:00

Numa noite longa de fim de dezembro, naquelas noites perdidas entre o natal e o ano novo, nessas noites que ninguém sabe muito bem para que servem, que não são pão nem bolo, estava à lareira a tentar criar e organizar pensamentos maiores sobre como se mata o frio da existência, como se aquecem as almas geladas, como sobrevivem os que cismam em noites de geada. Apetecia-me escrever um poema grande. Tinha todas as condições para o fazer, tinha tempo, tinha vinho, tinha lenha, tinha silêncio, tinha solidão, tinha uma estante com livros de poetas famosos, tinha o Noturno Nº 2 de Chopin a completar qualquer coisa que faltasse, tinha um pijama de algodão, tinha chinelos de quarto e tinha os pés quentes. Como sabemos, ter os pés quentes é uma condição essencial para se escrever boa poesia nos gélidos confins de dezembro. Depois de dar muitas voltas à cabeça e de beber metade da garrafa de tinto, não me ocorreu nada. As palavras chegavam e não tinham conteúdo, não prestavam para nada, eram feias, apareciam algumas bonitas, mas eu já as tinha visto num outro poema, ia à estante, abria um livro e lá estavam elas a espreitar, abria outro livro e lá estavam elas tal qual eu as tinha pensado no meu poema original de final de ano. Experimentei sequências novas, convoquei nomes diferentes, invoquei adjetivos distintos, propus espaços e tempos diferentes, exclamações que chegassem, interrogações que sobrassem, mas nada resolvia. As palavras vinham embrulhadas em papel A4 e quando eu as abria, eram apenas peúgas, todas pretas, todas iguais. Era de madrugada e já tinha os pés frios quando consegui escrever este pequenino poema de inverno: Onde há frio há fogo. Espero que gostem.

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