Diário do Alentejo

Os tempos pouco mudam
Opinião

Os tempos pouco mudam

Vítor Encarnação

02 de dezembro 2025 - 08:00

Afinal, os tempos pouco mudam, às vezes até regridem, o que era inaceitável e se quis transformar, através do intelecto, da cultura e da sensibilidade, volta mais depressa do que se julgava ser possível. Achávamos que não só não voltava como estaria para sempre ausente da cabeça das pessoas. Afinal, há coisas ruins que não morrem, há maldades que ressuscitam, há indignidades que ressurgem na boca dos mais jovens, nos atos dos adolescentes, na opinião dos cidadãos em crescimento de corpo e de mentalidade. Vejo retrocessos, assisto a situações que, por serem tão abjetas, julgava já não serem possíveis, moços a vangloriarem-se em público das façanhas carnais com as namoradas, ela faz isto, ela faz aquilo, a controlarem telemóveis, chamadas, mensagens, aplicações, códigos de acesso, a ficarem com o telemóvel se as namoradas se portarem mal, a chamarem-lhes nomes se elas errarem ou ousarem ter voz ativa, a imporem horas para elas chegarem a casa, a proibirem amigos, a chantagearem se elas os quiserem deixar, não te esqueças que eu tenho o tal filme, a apertarem-lhes o braço, primeiro discretamente, as lágrimas a aparecerem, silenciosas, sem darem muito nas vistas, porque se derem nas vistas e os namorados se sentirem ofendidos na sua masculinidade, então elas conhecerão a justiça e a dor dos estalos, dos empurrões e dos murros. E depois eles desculpam-se, desculpa amorzinho, e elas perdoam-nos e depois elas são violentadas novamente. Lá em casa ninguém quer saber, lá em casa é a mesma coisa, os homens são todos iguais, se não for este é outro. E depois casam e depois ligamos a televisão e vemo-los já adultos e são elas, quase sempre, a morrer às mãos deles. 

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