Já cheguei à conclusão que não sei viver sem cansaços. O desejo de existir sem inquietações há muito que morreu afogado em dúvidas.
Aceito este destino de acordar e adormecer rodeado de fadiga, não há nada a fazer a não ser viver o peso de um dia de cada vez. Dizer que sim a tudo, tentar tudo, executar tudo, levam-me à exaustão e, por não atingir nada de palpável, à frustração.
O cansaço físico e mental ouve-se na voz, vê-se no rosto, assoma-se nos olhos, tropeça nos passos, treme nas mãos, palpita no coração, arde no estômago.
Sou um profissional do cansaço, respeito as regras do abatimento, nunca falto, não paro, não faço intervalos. Mas quando a prostração diz que tenho de fazer uma pausa, como sei que não consigo viver sem cansaços, faço um retiro interior, isolo-me, deixo de respeitar horários, não respondo a nada, não vou a sítio nenhum, não aceito convites, e canso-me de tédio. Este tipo de cansaço é mais dormente, menos nervoso, mais cinzento, mais fundo, mas não deixa de ser um bom cansaço.
É o cansaço que escolho quando tenho férias. Troco o estímulo e a vertigem de estar a pensar em tudo ao mesmo tempo por algo mais vagaroso e mais requintado.
Levanto-me quando me apetece, como quando o corpo me pede, tento não me preocupar com nada. Deito-me sobre o silêncio à sombra do vazio e deixo-me ali estar muito quieto, de olhos fechados, a respirar pelo diafragma, contando palavras até adormecer. Mas quem conta palavras não consegue adormecer, as palavras não são todas iguais, há umas que são desassossegos, noites impossíveis onde as palavras se acham, dias possíveis onde as palavras se cansam. O cansaço de tédio é apenas uma doce ilusão.