Diário do Alentejo

Barbeiro
Opinião

Barbeiro

Vítor Encarnação

02 de agosto 2025 - 08:00

Quando eu era pequeno, não tinha mão no meu cabelo. Não crescia liso, simétrico e harmonioso como o dos outros moços, enleava-se, retorcia-se, não eram caracóis, eram nós impossíveis de desfazer. Ao acordar, parecia que tinha visto lobos. E ao quarto dia depois de ter tomado banho, sim, só se tomava banho uma vez por semana, o cabelo ficava todo empeçado. Quando não havia mais nada a fazer, quando os pentes eram um objeto inútil e a força da minha mãe a tentar domar a desordem capilar me punha lágrimas nos olhos, a tesoura era a única solução. A minha mãe enrolava as moedas num lenço, punha o lenço no bolso das calças de terylene e lá ia eu sozinho cortar o cabelo. Tal como não iam à escola, a não ser que fossem chamadas, as mães também não iam às barbearias. As barbearias eram casas de homens, eram, logo depois das tabernas, o espaço de afirmação de uma certa masculinidade feita de boinas, dichotes, cigarros sem filtro, escarros e façanhas com achigãs, lebres e mulheres. Os homens perguntavam-me se o meu pai era mocho e eu dizia que não. Os homens riam muito enquanto o barbeiro punha um banquinho de madeira sobre o couro verde da cadeira para eu me sentar. Nesse tempo, os barbeiros não perguntavam como é que nós queríamos o cabelo, agarravam numa tesoura e cortavam o que lhes apetecesse. Pendurado na parede havia um cartaz de um ator de cinema, eu fechava os olhos e imaginava que o meu cabelo ia ficar assim, solto e aloirado. Regressava imediatamente à realidade quando o pente de metal entrava no emaranhado do cabelo e o puxava todo para trás com a graciosidade de uma forquilha a juntar palha. Despojado das moedas, o lenço servia para ir limpando as lágrimas até casa.

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