Avô, já decidi que não quero crescer para que tu não fiques velhinho e morras. Ontem morreu o avô do Jaime e ele estava tão triste, chorou o dia inteiro e eu também chorei abraçado a ele. O Jaime contava-me histórias do seu avô e eu contava-lhes histórias tuas, ríamos da vossa maneira lenta de jogar futebol, confortávamo-nos com a vossa paciência e o vosso amor infinito. Eu não quero que tu morras, eu não sei o que seria de mim se tu morresses. Já decidi que vou ficar assim pequenino para sempre, não me crescerão pelos no corpo, não mudarei a minha voz, não festejarei aniversários. Ficarei assim como estou hoje, talvez sinta pena de não beijar a Matilde quando ela for mais velha, talvez fique infeliz por não fumar um cigarro às escondidas e sair à noite com os meus amigos. Mas prefiro parar o tempo, entre uma coisa e outra não tenho dúvidas, estou disposto a fazer todos esses sacrifícios para que tu não morras. Vamos fazer este acordo, ficaremos os dois eternamente como estamos agora, nunca ninguém há de dizer que o avô do João morreu, nunca irei chorar-te na escola, nunca passarei por essa tão grande dor. Já decidi que te quero ter para sempre, dos quatro só já te tenho a ti, se eu tivesse tomado esta decisão mais cedo ainda nenhum dos avós tinha morrido. O Jaime achou a ideia excelente, ele ainda tem outro avô, mas pensou bem e disse-me que prefere beijar a Matilde quando ela for mais velha. Contei aos meus pais o que ia fazer, ou melhor, não fazer, e eles olharam para mim e sorriram. Acho que não se importam porque eles também gostam muito de ti. Vou começar amanhã a não crescer. Não sei muito bem como é que se faz, mas hei de conseguir.