Diário do Alentejo

Música: Zé Emídio, um corredor de fundo

03 de março 2020 - 18:30

Tudo apontava para uma carreira na área do desporto, no atletismo, mas um erro médico de diagnóstico mudou-lhe o destino e “empurrou-o” para outras pistas. Zé Emídio – como é conhecido no meio – tem feito a sua vida na música, com a música e para a música. Quatro décadas depois das primeiras lições de piano e após inúmeros discos, espetáculos e projetos musicais, traçamos aqui o retrato de um corredor de fundo. Começou no rock, passou pela bossa-nova e pelo jazz, descobriu a música tradicional com Zeca Afonso e a viola campaniça por necessidade. Desde há mais de três décadas que o cante é a sua praia. Fundou vários grupos, mas, nos últimos tempos, é com Os Vocalistas que dá voz à sua paixão.


Texto: Aníbal Fernandes
Fotografia: José Ferrolho


Nasceu em Beja, tal como a mãe, mas foi em Penedo Gordo, de onde o pai é natural, que passou a infância. Filho de um trabalhador agrícola e de uma contínua (agora assistente operacional) da escola da aldeia, Zé Emídio veio ao mundo em 1964, 10 anos antes do 25 de Abril, revolução que o apanhou na 4.ª classe. E se fazemos referência à Revolução dos Cravos é porque tal se justifica. É que o Fundo de Apoio às Atividades Juvenis, vulgo FAOJ – organismo nascido durante os governos provisórios, no alvor da democracia –, foi a janela que se lhe abriu quando a porta do desporto se fechou. Feito o ciclo preparatório (5.º e 6.º anos), e quase completado o secundário, um exame médico detetou-lhe “um problema no coração”. De imediato, a atividade desportiva no Zona Azul, onde praticava atletismo como atleta federado, ficou suspensa. A opção escolar pela área de desporto foi substituída por outra, acabando ali o sonho de construir uma carreira como atleta. Depois de vários exames e consultas médicas, concluiu-se que de nada padecia, mas o “mal” estava feito e Zé Emídio já disputava outros campeonatos.

 

Começou pelas aulas de piano no FAOJ, em Beja. Francisco Torrão (grande divulgador e especialista do cante alentejano) era o professor, mas Zé Emídio também relembra Artur Jordão, um aluno como ele, mas que, por estar mais adiantado, o incentivou a levar para a frente a aprendizagem. Também frequentou os primórdios do conservatório regional, onde teve aulas particulares com a professora Ernestina Pinheiro. É, mais ou menos, por esta altura que funda a primeira banda rock. Greve Geral é o nome escolhido e faz jus aos tempos que se viviam. António Lúcio, hoje diretor da Rádio Pax, era o guitarrista. Mas, nestas idades, os projetos são como os amores de verão, vão e vêm a grande velocidade. Teddy Boys foi o agrupamento que se seguiu, este com um músico de Castro Verde, José Soares, já iniciado na linguagem do jazz. O gosto por descobrir e experimentar levou-o a sons e ritmos do outro lado do Atlântico. Free Wave, com o saxofonista Carlos Gonçalves e o baterista José Condeça põem-nos a navegar rumo à primeira internacionalização: um espetáculo em Aracena, na Andaluzia espanhola. No entanto, como diz o povo, “não há bem que sempre dure”. A defesa da pátria e o Serviço Militar Obrigatório transformaram o “músico” em “enfermeiro”. Feita a tropa no Regimento de Infantaria 3, em Beja, “passou à peluda” e foi, diretamente, para Lisboa. Na capital “assentou praça” na Direção-Geral de Veterinária, no departamento de audiovisuais, onde teve o primeiro contacto com estúdios, gravação de som, enquadramentos e planos, tudo coisas de que ainda hoje faz uso enquanto realizador dos vídeos de Os Vocalistas. No entanto, “galinha de campo não gosta de capoeira” e as visitas à terra eram mais do que muitas. A estadia na capital só durou seis anos.

 

 

É por esta altura que Fernando Pardal – com quem embarca no projeto Olhos da Noite – lhe dá a “descobrir” a música de Zeca Afonso, facto que o impele a mais uma mudança de rumo. Os ritmos tradicionais, mas também as influências tropicais, não devem ser estranhas à banda que se seguiu (Canto Chão), “uma sonoridade diferente” que, em conjunto com Arlindo Costa, Luís Melgueira, Henrique Lopes, Augusto Graça e os dois brasileiros Leo e Adriano, produziu dois CD com músicas que até integraram a banda sonora de algumas novelas da época. Estamos no início dos anos 90. Com o regresso a Beja assume outros desafios. Toma conta de Os Infantes, onde, diariamente, durante cinco anos, gere um café-concerto com música ao vivo. É a sua faceta de empresário.

 

ADIAFA 1998

 

É neste ano que nasce o projeto que teve até agora mais visibilidade mediática. Com Paulo Colaço funda Adiafa. O tema “As meninas da Ribeira do Sado”, que integra o primeiro LP produzido de forma independente, catapulta-os para o País e para um contrato com uma editora discográfica. Era o tempo em que a música tradicional tinha mercado e os levou a partilhar os palcos de todo o País com outros grupos do mesmo universo: Brigada Vítor Jara, Vai de Roda, Trovante ou Gaiteiros de Lisboa, por exemplo.


O cante era “música de velhos”, mas “estava na memória” e as saudades nascidas na estadia alfacinha transformaram-no “numa paixão”. Com Paulo Colaço, fez recolhas junto dos que sabiam tudo sobre modas e o toque da campaniça. Ti Manel Bento e Francisco Bailão foram as fontes onde foi “beber tudo o que sabe” acerca deste instrumento característico do Baixo Alentejo. No início, o grupo limitava- -se a cantar acompanhados pela viola campaniça, tocada por Paulo Colaço, e por percussão. Mas, em 2006, Paulo Colaço abandona o grupo e Zé Emídio assume a viola campaniça. “Tive de me mandar à campaniça e aprender a tocá-la em poucos meses”, diz.

 

 

PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL DA HUMANIDADE

 

Quase uma década depois, a 24 de novembro de 2014, em Paris, a Unesco declara o cante Património Cultural Imaterial da Humanidade. O boom que se seguiu, apesar de comemorado, tem um travo amargo e doce. “Por incrível que pareça a visibilidade, para mim e para as pessoas com quem trabalho, até foi um bocado abaixo e explico porquê: tive a sorte de ter sucesso com o Adiafa, Monda Mãe e Os Vocalistas antes da distinção do cante”, diz Zé Emídio. “Quando aconteceu apareceu muita concorrência. Davas um pontapé numa pedra e aparecia um grupo coral”, concretiza, admitindo que “houve um reconhecimento” deste tipo de música e hoje existe mais respeito pelo género. Mas está convencido de que se não se tomarem medidas efetivas para defender e promover o cante a moda passa e volta tudo ao mesmo.


Para que isso não aconteça defende que se continue a apoiar o ensino do cante nas escolas e os grupos corais, garantindo que há ensaiadores que assegurem a continuidade e a genuinidade do género. No entanto, Zé Emídio confia no futuro. “O facto de haver tantas crianças a aprender vai avivar o interesse no cante. Há 50 anos cantava- se em todo o lado. Daqui a outros 50, as crianças de hoje ainda se vão lembrar”. Mas, perguntámos nós, se o cante celebra a vida e a morte, as estações do ano, o trabalho e a festa – tudo coisas que existem nos nossos dias – por que não há temas atuais? Engano do entrevistador. “Neste momento há, pelo menos, duas ou três pessoas a compor, aqui no Alentejo, e eu sou uma delas. Já cantamos um tema (‘Moinante’) e vamos cantar mais da minha autoria, mas também gravámos um tema do Paulo Ribeiro (‘Aldeia Nova’)”, esclarece Zé Emídio. “O cante está vivo. É uma questão de hábito e dos cantadores dos grupos corais se adaptarem”. Mas não é tarefa fácil chegar ao pé de um grupo coral e dizer: toma lá uma moda e cantem lá isso. “Nota-se um bocadinho de resistência”… Nada a que um corredor de fundo não esteja habituado.

 

 CANTADOR, TOCADOR, ENSAIADOR, AUTOR E PRODUTOR

Foram mais que muitos os projetos musicais em que Zé Emídio se envolveu. Promovidos por ele, ou a convite de outros, fez de tudo um pouco nestes quase 40 anos que leva ligado à música: Maria Açorda, projeto de fusão com base no reportório tradicional; Rastolhice, música popular; Moda Mãe, vozes e campaniça, originalmente com Luís Caixeiro e António Caixeiro, e por onde ainda passaram Buba Espinho, Bernardo Emídio e Ruben Lameira; Fanfarra Alfares, música de intervenção, com poemas de Paulo Abreu de Lima, do qual resultaram dois CD em nome próprio e em que num dos temas faz um dueto com António Zambujo; Baile Popular, um projeto de João Gil e João Monje que integrou com Paulo Ribeiro, Luís Espinho e João Paulo; Mestre Cante, disco apoiado pela Câmara de Beja, para assinalar a distinção do cante pela Unesco, produzido por ele e que contou com a participação de Rui Veloso, Janita Salomé, Paulo de Carvalho, Clara Palma, Luís Espinho, António Caixeiro e Buba Espinho; Aljustrel a Cantar, projeto que produziu para o município da Vila Mineira e que juntou todos os grupos corais do concelho. Há ainda que referir a sua atividade como ensaiador e que atualmente exerce no Grupo Coral de Baleizão.

 

CANTAR A “GRÂNDOLA” NO CONCURSO “A CAPELLA”, NA RTP, “FOI ESTRATÉGICO,

NÃO NOS PODIAM MANDAR EMBORA PORQUE FICAVAM MAL VISTOS”


Os Vocalistas é o mais recente projeto musical em que José Emídio(JE) está envolvido. Ruben Lameira(RL) e Bernardo Emídio, seu filho, são os companheiros nesta nova viagem. Em formato de trio, só com as vozes ou acompanhados pela viola campaniça, têm divulgado um pouco por todo o lado, em Portugal ou no estrangeiro, as modas do cante alentejano. O ponto mais alto de visibilidade aconteceu durante o programa “A Capella”, na RTP1, em 2017, onde chegaram à final, mas é nas redes sociais que mantêm a chama acesa e o interesse do público e dos promotores de espetáculos no seu trabalho. No início deste ano lançaram mãos a uma empreitada a que chamaram “Bissexto de Modas”, 366 temas disponibilizados, um por dia, no Facebook e Youtube. Para além disso têm um disco gravado à espera de melhores dias para ser lançado.


O que os levou a participar no “A Capella”, na RTP1?


JE – O grupo já existia. Trabalhávamos o cante a vozes, vi o anúncio e achei que tinha o nosso perfil. Segundo o regulamento, eram precisos, no mínimo, cinco pessoas. Recrutámos mais dois elementos (LFR e Trigacheiro). Mandámos o vídeo de candidatura e fomos logo apurados para as galas, talvez por ser uma cena diferente.

RL – No primeiro programa, a produção enviou um email a informar que íamos cantar o “Playback”, do Carlos Paião. Chegámos ao Braço de Prata, onde eram os ensaios, deram- nos a letra, fomos para uma salinha e em cinco ou seis minutos cantámos o tema logo para gravar…


Mas por que decidiram participar?


JE – Foi um clique que teve a ver com o facto de nunca ter existido um programa daqueles. Não teve qualquer outro objetivo.


Mas acabou por ter consequências…


JE – Claro que teve. Primeiro obrigou-nos a trabalhar as vozes e fazer harmonias e arranjos fora da nossa zona de conforto, o que nos mostrou – mesmo para o cante – que se trabalharmos obtemos resultados. Para além disso, deu-nos outra visibilidade e novos contratos. Isto é a nossa profissão. A partir de determinada altura, não posso negar, pensei assim: bora lá, isto vai-nos ajudar. Mas não foi fácil. Aquilo era uma trabalheira e exigia muitos ensaios. Exigiu uma mudança da nossa parte porque a malta estava habituada era a cantar modas. E naquela altura não estávamos na nossa praia. Lá tive de ir desenterrar o piano para ajudar nos ensaios…


Então o ensaiador que aparecia no programa…


JE – Era tudo treta. O maestro Rui Massena dava uma dicazinha, mas só para aparecer na fotografia. Nós é que fazíamos os arranjos.


Mas, em determinada altura do programa, apareceu o cante. Foi quando vos deram a oportunidade de escolherem o tema…


JE – Fui eu que dei a ideia. O grupo estava quase a sair e aquela escolha foi uma cartada, foi uma estratégia…


Ou seja, escolhemos a “Grândola” e ninguém nos tira de cá…


JE – Tal e qual. Para já porque cantámos aquilo bem; depois, o cunho que lhe demos era o do cante tradicional; e, por último, fizemos um arranjo em que juntámos uma série de elementos que deu naquilo que deu.

RL – Levou-nos à final.

JE – Foi pensado e até pela carga política. Não nos podiam mandar embora porque ficavam mal vistos.


Mas a história de Os Vocalistas não começa aqui. Apesar da visibilidade obtida com a participação no programa, o grupo já tinha algum reconhecimento.


RL – Já. Aliás, o programa depois de gravado demorou imenso tempo a ir para o ar e o Zé Emídio tirou “um coelho da cartola” e inventou a “Quarentena de modas” [40 temas tradicionais disponibilizados no Facebook e Youtube e que terminou com um espetáculo no Pax Julia, em Beja] e isso deu-nos uma grande visibilidade.


Isso foi a vossa primeira experiência nas redes sociais. Como é que funcionou?


RL – Toda a série obteve para cima de um milhão de visualizações e hoje, passado este tempo, ainda continua a subir.


Desculpem a teimosia, mas essa audiência tiveram vocês em apenas dois programas de “A Capella”…


RL – Sim. Aliás, o convite para ir cantar a Macau surgiu na sequência do aparecimento na RTP e RTP Internacional. No estrangeiro também teve muito impacto. JE – As duas coisas complementam-se.


“Quarentena” foi a primeira experiência nas redes sociais, mas agora lançaram outro projeto…


RL – Sim, o “Bissexto de modas”. Estava-se a perder o impacto…
JE – Não temos problemas em admiti-lo. Se não tivermos uma forma de divulgar o nosso trabalho não o podemos vender. Somos profissionais. Não trabalhamos, não comemos. Ou, pelo menos, não vivemos da música. Estas iniciativas são atos promocionais.

 

 

Então, a participação nos “Globos de Ouro”, da SIC, em 2019, também deve ser encarado da mesma forma?


JE – Sim, e também teve importância. As pessoas vêm e comentam, mas acaba logo, é tudo muito efémero. Tens de fazer mais coisas a seguir.
RL – Eu sinto que as redes sociais são um bom meio para divulgar o nosso trabalho até pelo feedback que temos tido em termos de marcações de espetáculos. Mesmo quando vamos à televisão, para ter efeito, temos de transpor para as redes sociais.


Será por hoje os canais de divulgação serem diferentes que explica o facto de Os Vocalistas terem um disco gravado e ainda não ter sido lançado?


JE – Sim. Para já porque andamos a tentar interessar alguma editora. Eu, sinceramente, não acredito muito, mas a esperança é a última coisa a morrer. Voltando muitos anos atrás, o Adiafa fez o primeiro disco totalmente custeado pelo grupo, começou a ter sucesso e uma editora agarrou o projeto. Pode ser que com estas iniciativas que estamos a promover apareça alguma editora interessada. O disco está feito. Quando houver um vagar a gente manda fazer o disco. Já fizemos a proposta para fazer o lançamento aqui em Beja, mas ainda não recebemos resposta. Se calhar, se já tivéssemos tido abertura para fazer o lançamento, já o tínhamos editado…


Falemos em concreto do disco. Tanto quanto sei representa uma mudança de paradigma. Participam uma série de músicos, com João Frade à cabeça e que é o responsável pelos arranjos. O que vos levou a encetar este novo caminho?


JE – As pessoas estão habituadas a ouvir-nos só com a viola campaniça e com as vozes, mas eu sempre trabalhei em cima do tradicional juntando outros instrumentos, fazendo “mal ao cante”, dirão algumas pessoas. Agora surgiu a oportunidade de trabalhar com este músico excecional, mas também com Marito Marques, Tiago Oliveira, Adriano Alves, Diogo Duque, Manuel Oliveira, Leonardo Tomich, Guilherme Banza, grandes músicos em qualquer parte do mundo. Neste momento estamos a fazer dois tipos de espetáculo: em trio só com a campaniça e com banda. Não largamos o tradicional, mas dá-nos também um enorme prazer tocar com estes instrumentistas.

 

Voltando um bocado atrás e os “Bissexto demodas”: como é que foi o processo de escolha dos 366 temas?


JE – Não tivemos o mínimo de preocupação com isso. É um problema resolvido no momento em que gravamos. Então gravamos qual? Gravamos a tal. Isto acontece porque, felizmente, nós temos no nosso imaginário muitas, muitas, muitas modas. E, depois, temos a sorte de já haver muita coisa publicada e gravada onde podemos ir pesquisar e aprofundar o conhecimento para dar às modas o tratamento que merecem.
RL – Chegámos a ter o tripé montado para gravar e depois é que escolhemos a moda.


Já vi alguns dos vídeos. Alguns têm a presença de “figurantes” nas aldeias e campos. Como é que as pessoas reagem à vossa presença?


JE – Vou contar uma coisa curiosa: o vídeo que apresentámos hoje [terça-feira, dia 18], quando o gravámos, estava lá a pessoa a quem ouvi a moda pela primeira vez. Aparece encostado ao balcão a cantar connosco. Foi coincidência, uma boa coincidência. E a equipa de filmagem…
RL – É um Iphone 8 Plus e um tripé. É o quanto basta.

 

 

 

 

 

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