Diário do Alentejo

Beja: Sítio do Forúm Romano de Beja

03 de março 2020 - 12:10

“É urgente avançar com o projeto para efeitos de conservação do sítio arqueológico”, avisou Ana Paula Amendoeira, diretora regional de Cultura do Alentejo, durante a apresentação pública do projeto do Sítio do Forúm Romano de Beja. O projeto custará cerca de 1,5 milhões de euros, a somar aos 3,8 milhões gastos nos últimos anos. Escavações no local foram iniciadas há quase três décadas.


Texto: João Fialho
Foto: José Ferrolho


O transeunte que passar pela rua da Moeda dentro de alguns anos verá um edíficio com enormes janelas de vidro com vista para o Sítio do Fórum Romano de Beja. Este novo edifício, que será a zona de acolhimento aos visitantes, é uma das propostas previstas para aquele local. Nesse lugar também se localizará o centro de interpretação do sítio arqueológico. As estruturas amovíveis em todo o projeto são a principal aposta da equipa de arquitetos. Os locais onde os visitantes poderão passar estarão “levantados sobre o chão”, explicou o arquiteto Victor Mestre no decorrer da apresentação do projeto, no final da semana passada. “Não acreditamos em edificações que sejam feitas para sempre”, acrescenta. Também será possível subir ao nível do edíficio da entrada, que terá um varandim na parte de cima, e vislumbrar uma vista mais alta da área em redor. Estas estruturas permitirão a “pessoas com mobilidade reduzida terem acesso a qualquer local do sítio”.

 

 

Desta forma, pretende-se que com este “sistema reajustável não se prejudique os trabalhos de arquelogia”. “As estruturas já vêm montadas, tal como peças de lego”, acrescentou Victor Mestre. A colocação de um vidro que simule os templos numa dimensão real, tal como foi feito na antiga cidade romana de Palmira, localizada na Síria, e a criação de uma experiência de hologramas, no período noturno, são outras propostas abrangidas por este projeto. Criar estes elementos complementares seria “importante, pois só existem as fundações e assim poderíamos dar a conhecer a sua grandeza”. O arquiteto Victor Mestre salientou que a “prioridade é o quarteirão” e destacou a necessidade de se olhar para o conjunto e não apenas para o sítio arquelógico. Desta forma pretende- se “consolidar os muros dos vizinhos, com soluções amigas da arqueologia”, ou seja, que tenham o menor impacto possível no local. Outra das preocupações dos responsáveis pelo projeto foi “encontrar uma solução que respeite o trabalho que já está feito”. “É uma obra de grande dimensão, não é um quintalinho”, explicou o arquiteto, referindo-se à complexidade do empreendimento. “Estamos a lidar com uma cidade que existia há dois mil anos e outra atual”, sublinhou, aludindo a possíveis transtornos na vida das pessoas que habitam na zona limítrofe.

 

 

O presidente da Câmara Municipal de Beja, Paulo Arsénio, disse, por sua vez, que o projeto “está numa fase muito avançada, apesar de não estar ainda fechado”, mas o executivo municipal pretendeu, desta forma, “apresentar o resultado de dois anos de trabalho”. O objetivo é “estabilizar o espaço” e torná-lo num local aprazível para a cidade. O autarca lembrou que foram gastos “três milhões e 800 mil euros em 10 anos” neste local pela Câmara Municipal de Beja. “A primeira fase do projeto custará cerca de um milhão e 500 mil euros e o fórum romano será uma das prioridades”, disse. “É um esforço notável, mas necessário para dignificar o espaço”, acrescenta Paulo Arsénio.” Se tudo correr dentro do que é habitual nestes processos esperamos poder iniciar a intervenção em 2021 e terminá- la em 2022”. Por seu lado, Ana Paula Amendoeira, diretora regional de Cultura do Alentejo, salientou a urgência desta obra para “parar a degradação das estruturas arqueológicas”.

 

 

Quanto ao projeto, considera que este “cumpre os princípios de impactos mínimos” no local. “Esta proposta cumpre os princípios de reversibilidade e de impacto mínimo, ou inexistente, nos valores patrimoniais em presença”, sublinhou. Recorde-se que o complexo arqueológico foi descoberto em 2008 pela equipa da arqueóloga Conceição Lopes, da Universidade de Coimbra, após o incêndio que atingiu o Departamento Técnico da Câmara Municipal de Beja em outubro desse ano. Neste local destacam-se os templos do século I d.C., de Augusto e de Tibério, os dois primeiros imperadores romanos, para além de um edifício da Idade do Ferro, “um dos melhores e dos mais bem conservados da Idade do Ferro descobertos no Sul do País”, dizia, pouco tempo depois da descoberta, Conceição Lopes. A identificação deste complexo foi efetuada pelo arqueólogo Abel Viana em 1939, durante a abertura dos caboucos para a construção do reservatório de água de Beja, que entretanto foi demolido. Naquele tempo foi encontrado um grande edifício, mas os vestígios foram tapados até ao final dos anos 90 do século passado, ocasião em que Conceição Lopes decidiu iniciar escavações no local.

 

“MAIOR TEMPLO ROMANO EM PORTUGAL”

 

É o “maior templo romano encontrado em Portugal e completamente conservado”, dizia Conceição Lopes, ao “Diário do Alentejo”, em 2009. O edifício com mais de 30 metros de comprimento num dos lados, 19 metros de altura e rodeado por um tanque com 4,5 metros de largura estava soterrado no logradouro do Conservatório Regional do Baixo Alentejo, junto à praça da República. “É um templo muito interessante, porque é específico da Península Ibérica, sobretudo do sul, existe apenas em Évora e Ecija, perto de Sevilha”, acrescentava. A arqueóloga salientava que o tamanho do templo fazia sentido porque Beja, Pax Julia, naquele tempo, era a cidade mais importante do Sudoeste Peninsular e com estatuto de colónia romana. “Era a capital do conventus (circunscrição territorial) e do ponto de vista da justiça todos os problemas entre o Tejo e o Algarve resolviam-se aqui”, exemplificava.

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