Diário do Alentejo

A transformação do homem em “simples funcionário”

15 de novembro 2019 - 14:20
DRDR

Professor de literatura portuguesa e de técnicas de escrita na Universidade Autónoma de Lisboa. Publicou, em 1999, o seu primeiro livro, Ritos de Passagem, e, de lá para cá, mais 10 livros de poesia, tendo Depois de Dezembro sido galardoado, em 2011, com o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores, para melhor livro de poesia. No Rio de Janeiro publicou, em 2017, Corvos Cobras Chacais, em edição luso-brasileira da editora Jaguatirica/Gato Bravo. No ano em curso, pela Dom Quixote, publicou o seu mais recente livro de poesia, Jaguar.

 


Texto José Serrano

 


Foi apresentado, a 31 de outubro, na Biblioteca Municipal José Saramago, em Beja, o livro Voltar a Ler – Sobre Poesia, Educação e Outros Ensaios, obra de António Carlos Cortez, que reúne cerca de 20 anos de crítica literária.

 

 

Como nos apresenta este seu livro?
Trata-se de uma compilação de ensaios e recensões, vindos a lume nestes últimos 20 anos, a que juntei artigos saídos no jornal “Público”. É um livro dirigido aos professores e investigadores, na esperança de dar a conhecer quer alguma poesia portuguesa moderna e contemporânea, quer alguns dos nossos ensaístas maiores, isto é, leitores da poesia portuguesa, pois sem eles não teríamos as chaves com que rodar a porta da poesia para penetrar no reino das palavras.

 

 

Pressupõe o título deste livro uma reflexão sobre a importância de dedicarmos tempo à leitura?
Este título – Voltar a Ler – é ambíguo: em tempo de ditadura tecnológica, voltar a ler no sentido de fazer uma releitura do passado, mantendo viva a memória literária. Mas “voltar a ler” no sentido em que só compreendemos verdadeiramente a poesia, a literatura, a cultura de que fazemos parte quando lemos e relemos.

 

 

Considera que o deleite proporcionado pela leitura tem vindo a ser menosprezado, trocado por “amores” menos leais e prazerosos?
Considero que vivemos uma época inimiga da memória literária e daquilo a que se chama humanidades. O sistema capitalista mundial, o sistema educativo de hoje está assente naquilo que Allan Bloom chamou de “amnésia cultural”. George Steiner, um dos grandes intelectuais do nosso tempo, sublinha que a literatura e a história, a filosofia e as artes estão hoje limitadas a um espaço reduzido, seja nos jornais, na escola, nas universidades, no discurso político. Vivemos numa sociedade decapitada em que o show off, o pensamento único, o politicamente correto, servem um só propósito: alienar o homem, transformá-lo em simples funcionário. Alguém que funciona para a empresa – não pensa, não sente. Não questiona e despreza quem pense e sinta e pense. Sem leitura e sensibilidade que sociedade teremos num futuro próximo?

 

 

Exerce a sua condição de alentejano influência no que escreve?
Os meus pais são alentejanos e eu, por contiguidade, também. Talvez esta condição me influencie… Uma certa melancolia, algum fatalismo, as paisagens do Sul, as grandes extensões, o Sol, a proximidade com o mediterrâneo, tudo isso teve forte eco em mim. Os verões em Serpa, e mais tarde o contacto com a cidade de Beja, amigos que aí conheci (Joaquim Mestre, Martinho Marques, Paula Santos, Cristina Taquelim, Marta Mestre…), como poderia a minha poesia ficar imune a esta geografia humana?

 

 

O que pode, ainda, a literatura fazer por nós?
Pode ensinar-nos a reconhecer “o velho paraíso que perdemos” (Torga), a infância, e um modo de viver mais consciente com ideais muito simples e claros: justiça, amor, liberdade.

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