Diário do Alentejo

A simplicidade aparente de uma casa na pradaria

03 de setembro 2019 - 09:45

Texto José Serrano

 

Formou-se em Arquitetura na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, em 1986. Antes, quis ser escultor e a paixão pela escultura ter-lhe-á legado uma compreensão própria e distintiva do lugar da arquitetura na paisagem. Advoga uma arquitetura capaz de resolver os desafios que a colisão de vontades, entre cliente, paisagem e regras locais, por vezes suscita. Mais do que uma arquitetura de imposição, Luís Rebelo de Andrade propõe e pratica uma arquitetura de superação, pois crê que é do encontro entre opostos que surge a perenidade que caracteriza as melhores obras.

 

A Casa 3000, um projeto do arquiteto Luís Rebelo de Andrade, situada na herdade da Considerada, no concelho de Alcácer do Sal, foi distinguida, em junho, nos Prémios de Arquitetura 2019, da conceituada plataforma internacional on line Architizer A+Awards. Escolhido entre 553 finalistas, o projeto assume-se como “um marco arquitetónico que demarca um diálogo intrínseco para com o lugar e a sua ampla envolvente natural”.

 

O desenho exterior da Casa 3000 é, permita-me, aparentemente simples. É este despojamento de supérfluo o mais difícil de atingir numa ideia arquitetónica?
A Casa 3000, com o seu telhado de duas águas, portas e janelas, remete, numa primeira instância, para o arquétipo da casa, ingenuamente/tipicamente desenhada pelas crianças em idade pré-escolar. A aparente simplicidade desta proposta assenta, na verdade, num imaginário coletivo e romântico que todos partilhamos: o da casa na pradaria, o da vida dos pioneiros e dos conquistadores do oeste americano.

 

Existiram preocupações ambientais que presidiram a este projeto?
Sim. O contexto paisagístico e as imposições ambientais inerentes ao lugar acabaram por ditar que a Casa 3000 fosse executada seguindo os princípios Passive House, um conceito construtivo que define um padrão de elevado desempenho e eficiência, sob o ponto de vista energético, da saúde e conforto que providencia, da relativa acessibilidade do seu custo e, claro está, da dimensão sustentável que agrega este princípio de construção. Esta é uma casa autossuficiente, com recurso a energias renováveis para o seu pleno funcionamento e manutenção.

 

Considera que a arquitetura tem, atualmente, um papel relevante na edificação de sociedades com maior capacidade de sustentabilidade energética ou está esse desígnio por cumprir?
Esse desígnio ainda se encontra por cumprir, pelo que todos os esforços das nossas sociedades e, nomeadamente, da nossa prática e missão enquanto arquitetos, têm de se focar, cada vez mais, nesse sentido e com esse propósito.

 

O que pensa da arquitetura tradicional do Alentejo?
Considero que se trata de uma arquitetura com uma identidade e um caráter bastante particular e cujo legado não devemos deixar, de todo, desaparecer.

 

Já constituiu para si, essa arquitetura, alguma forma de inspiração, ainda que aliada a um pensamento arquitetónico mais contemporâneo?
Por inúmeras vezes, muitas das práticas, técnicas e costumes da arquitetura vernacular alentejana assumem-se como importantes lições que se traduzem, de um modo ou de outro, em muitas das intervenções arquitetónicas contemporâneas que tenho tido oportunidade de empreender.

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