Diário do Alentejo

“Ler para conhecer e amar”

01 de agosto 2026 - 08:00
Livro sobre Beja, de João Ferro Pelica, permite “caminhar por uma cidade que já não existe”

João Ferro Pelica, 44 anos, natural de Beja 

 

João Pelica é doutorado em Ambiente e Sustentabilidade, professor e investigador, apaixonado pela história de Beja. Dedica-se ao estudo e à divulgação do passado da cidade, tendo iniciado a sua obra literária com o período romano através do romance histórico Sob as Muralhas de Pax Julia. Pretende, contudo, alargar este projeto a outras épocas marcantes da história pacense, contribuindo para aproximar o património local do grande público.

 

João Ferro Pelica apresentou, recentemente, na Biblioteca Municipal de Beja, o seu primeiro romance intitulado Sob as Muralhas de Pax Julia.

 

Como nos apresenta este livro?

Este livro é a forma como vejo Beja. Saí da cidade aos 23 anos e, hoje, só volto nas férias. Regressar custa, porque quando saímos pelas portas da cidade levamos uma imagem dentro de nós. Quando voltamos, tudo mudou: os amigos, as famílias e nós próprios. Este romance nasceu desse sentimento. É voltar a Beja e perceber que ela já não nos pertence da mesma maneira, reconhecendo que foi ela que nos construiu e nos levou a ser felizes noutro lugar.

 

Encontrará o leitor nesta obra similitudes entre a “maneira de ser” dos cidadãos da cidade romana e da Beja contemporânea?

A história repete-se mais do que imaginamos. Beja mantém uma identidade muito própria, feita de afetos, resistência e divisões. Surgem novas ideias, mas nem sempre existe um verdadeiro espírito coletivo. Basta ler as histórias publicadas no “Bejense” e na “Cronologia de Beja”, agora pesquisáveis graças ao extraordinário trabalho de André Galrito. São testemunhos que revelam como esse espírito parece atravessar gerações. No fim, as pessoas passam, mas as muralhas permanecem.

 

Considera que Beja tem sabido valorizar correta e proficuamente a sua memória histórica?

Quando passamos pelas portas de Mértola ou pelas portas de Moura e vemos roupa estendida sobre muralhas com mais de dois mil anos, que foram reconstruídas várias vezes, testemunharam guerras e fazem parte da nossa identidade, percebemos que ainda há muito por fazer. Beja guarda, ainda, muitos mistérios, como o percurso das cloacas romanas e a localização do teatro. A cidade precisa de um projeto capaz de ultrapassar os ciclos políticos, valorizar o seu património e unir quem ama a história de Beja. Ressalvo o excelente trabalho da ADPBeja [Associação para a Defesa do Património Cultural da Região de Beja] e dos seus membros na defesa e divulgação do património.

 

Acredita que a literatura histórica, a exemplo desta sua obra, pode despertar nos mais jovens o interesse pelo património de Beja e pela sua história ancestral?

Oxalá. Um romance permite aos jovens caminhar por uma cidade que já não existe, conhecer as suas pessoas e compreender o património que os rodeia. Os livros ensinam-nos a imaginar, a ouvir e a compreender antes de julgar. Num tempo de opiniões rápidas, continuam a formar cidadãos mais livres e conscientes. Ler para conhecer e amar.

 

Que mensagem espera que os leitores levem consigo depois de lerem este romance?

Acima de tudo, gostava que olhassem para quem está ao seu lado com mais humanidade. Independentemente da origem, da língua ou da religião, todos procuram o mesmo: um lugar para viver, amar e ser felizes. A felicidade não se rouba. Constrói-se quando aprendemos a respeitar o outro.

 

José Serrano

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