Diário do Alentejo

DIGO EU…Mais do mesmo

27 de setembro 2026 - 08:00
Foto | Ricardo ZambujoFoto | Ricardo Zambujo

Jorge Martins

 

Chegamos agora ao final de mais um verão. Passos curtos e estaremos no fim da chamada silly season, à letra, época parva, que, na realidade, pouco foge disso. Não pelo verão. Não pelo hábito. Mas pela tendência, agravada pela disponibilidade, de que tudo faz sentido, de que tudo tem lugar e de que todos os que têm voz devem fazer-se ouvir. Tivemos mais um verão do mesmo. As mesmas histórias felizes. As mesmas viagens entusiasmadas de ida. As mesmas viagens saudosas de regresso. Os mesmos regressos de quem partiu sem volta marcada. Os mesmos convívios adiados. As mesmas correrias por gosto, que cansam mas não moem. Os mesmos abraços que vêm do fundo. As mesmas noites sem tempo contado. Os mesmos chinelos com os mesmos calções. Os mesmos cuidados com os mesmos escaldões. As mesmas fotos. O mesmo areal. A mesma ida à terra. A mesma praia fluvial. Os mesmos jantares que começaram por ser almoços. Os mesmos amigos que trazem sempre um outro novo. As mesmas dúvidas sobre o destino. A mesma certeza sobre a necessidade (urgente) de o encontrar. A mesma correria para ocupar. O mesmo abuso ao pedir. A mesma loucura ao pagar. O mesmo encontro de pronúncias. As mesmas queixas sobre o tempo. E, também, neste ano, algumas (justificadas) sobre a temperatura. As mesmas desgraças. As mesmas notícias que não o são. Os mesmos incêndios. As mesmas parangonas vazias. Os mesmos fait divers que ocupam. Os mesmos truques que iludem. Os mesmos intérpretes que se aproveitam. As mesmas transferências inesperadas. As mesmas maçãs podres. As mesmas rivalidades. As mesmas tradições. As mesmas rotinas. As mesmas exceções. E é exatamente aqui que quero parar. Pois, sabendo de antemão que existirão muitíssimas outras que caberiam nesta reflexão, hoje trago aqui uma exceção a esta lengalenga do mesmo que lhe dá, por um lado, o valor que ela tem e lhe tira, por outro, a certeza de ser repetível. Nesta “mesmisse”, também neste verão, num dia normal, alguém entregou da mesma forma a sua criança aos cuidados da mesma instituição, com a mesma confiança de sempre, numa mesma rotina de todos os dias, com uma pequena – grande… enorme... gigante diferença: esse dia não teve o mesmo fim. Mas não é propriamente o caso que me traz a esta reflexão. Esse não tem muito por onde fugir. Não há com certeza como escapar ao rótulo de tragédia. Não há como não sentir. Não há, porém, nem de perto, como imaginar. O resumo está feito e foi amplamente esmiuçado. A verdade é que daquela tarde em diante perdeu-se uma vida, mas muitas outras ficarão em suspenso para sempre, respirando da mesma forma à tona, mas existindo muito pouco na superfície. Poucos de nós, felizmente, saberão o equivalente àquela dor. Dor essa que justiça alguma irá alguma vez compensar. Como se fizesse sentido, sequer, juntar a palavra justiça a este contexto. Podia até aqui escrever uma frase complacente que iniciaria com: “Perder um filho é…”. Mas o que raio saberei eu deste tema para sequer ousar colocar-me ao nível dos sentimentos de quem passa verdadeiramente por isso, presumindo saber algo que no fundo todos nós, pais, “rezamos” para nunca sentir? E é precisamente aqui que, do meu ponto de vista, reside a questão para reflexão: como ousamos nós, implacáveis justiceiros em seara alheia, juízes da vida do próximo, provedores de soluções infalíveis, entendedores da poda no geral e em particular e mestres da escrita automática (que de inteligente terá muito pouco), pronunciarmo-nos sobre algo que jamais entenderemos? Partimos com uma facilidade para o julgamento que, regra geral nestes casos, passa muito pela condenação imediata com direito, se possível, a apedrejamento em praça pública. Mas enquanto este não é literal, o outro, o das palavras, pode ferir muito mais. Não se tem em conta que falamos de pessoas que estão, todas elas, numa posição de fragilidade sem igual e que não estão capazes de se sentar em nenhum dos lados da barricada e, como tal, não vão agradecer (como de resto parecem esperar esse heróis do teclado) a vossa compaixão disfarçada de heroísmo. Numa situação de luto, ainda para mais inesperado e sem uma relação causa/efeito que nos leve a conclusões óbvias, tudo o que se quer é uma concha da qual só sairemos quando estivermos preparados e não quando alguém “grita” pela nossa presença. Os gestos que contam nestes momentos são aqueles que são feitos em silêncio. Ou, melhor dizendo, num silêncio social. É suposto que pessoas crescidas saibam, ou tentem, pelo menos, separar o trigo do joio. Que saibam dar tempo. Respeitar o espaço. Honrar a dor. Perderam-se várias vidas num episódio só. A daquela criança, que mal tinha começado. A daqueles adultos, enquanto pais. A daquela(s) profissionais, que não voltarão a essa vida da mesma forma. Jamais… E não! Antes da minha condenação também em praça pública, eu não coloco – de todo – estas perdas todas no mesmo saco. Há uma, a mais relevante, que não terá nunca paralelo e é irremediável. Mas a minha reflexão não tem em vista o julgamento dos envolvidos diretos. Tem como alvo (de reflexão, repito), isso, sim, e porque nesse campo sou tão válido quanto qualquer um dos demais, os detentores das verdades absolutas que saíram rápida e imprudentemente com a sentença debaixo do braço ou, melhor dizendo, na ponta dos dedos. A esses, a todos aqueles que se conseguem posicionar numa situação destas, eu tiro o meu chapéu. Porque eu não consigo e espero nunca conseguir. Não pela síndrome de avestruz, mas, isso sim, pelo valor do respeito. Pelo tema. Pelas pessoas. Pela vida que se perdeu e pelas restantes que, digo-vos eu, nunca mais serão as mesmas…

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