Diário do Alentejo

Água de Peixes: memórias e património

16 de janeiro 2024 - 08:00
Foto| DR

Texto João Taborda

Em Água de Peixes “[…] o que realmente mais se impõe ao espírito do observador é a grandeza antiga diluída em sombras de jardim e murmúrios de água”. (Abel Viana, 1951, p.16)

Água de Peixes é uma herdade localizada no município de Alvito. Com mais de 1000 hectares, preserva no seu interior quinta e solar com o mesmo nome. Foi vila e sede de concelho até 1836 e pertenceu aos condes de Tentúgal, depois também duques de Cadaval, em cuja casa permaneceu até às primeiras décadas do século XX.

As riquezas do subsolo, a relativa fertilidade da terra, a doçura do relevo e o denso coberto vegetal terão, desde há muito, aí atraído gentes. Mas o fator-chave para a compreensão da antiga e continuada presença humana em Água de Peixes, e que desde logo justifica o topónimo, terá sido a abundância de água.

 

Uma viagem em tempos de pandemia O ano de 2020, com os confinamentos a cercearem-nos, foi vivido com uma sensação de plena… liberdade… a cada visita a Água de Peixes. Ainda velhas cercas nos consentiam a entrada naquele mundo de um tempo outro… Calcorreado de lés-a-lés, demorada e insistentes vezes, assim fui conhecendo um território onde a presença do passado perdura na forma de apaixonantes vestígios… que importaria preservar.

Estas linhas resumem o que “descobri” naqueles meses de itinerância, especialmente, pela metade oriental de Água de Peixes e, em particular, pela área entre a nascente de “Olho de Pedro” e o extremo sul da herdade, encantadora várzea do ribeiro que, já para lá dos seus limites, conflui com a ribeira de Alvito. Mas são também breves notas do muito que me ensinaram António e Joaquina Letras, casal morador na vizinha Albergaria dos Fusos. Ele, com 95 anos, tal como o pai e os avós paternos, natural de Água de Peixes, é o guardião das memórias duma época em que ali nascia gente e em que, do romper ao pôr-do-sol, palácio, quinta e herdade palpitavam de azáfama e vida. Recordo, pois, já com saudade, as demoradas conversas em sua casa, por trás de máscaras, ora na cozinha, junto à velha chaminé, ora, quando o medo incutido pelo escalar dos casos assim o recomendava, no alpendre, a redobrada distância… no que foi um luminoso feito em tempos de negrume, e que permitiu que levedasse entre nós uma estima que me comove e envaidece.

O porto da “Calçadinha” A presença humana em Água de Peixes poderá recuar ao período romano. É o que, desde logo, parece validar o fuste que se eleva no centro do terreiro fronteiro ao paço… talvez a reutilização de uma coluna de villa próxima. Feio e Diogo [Levantamento da Carta Arqueológica do Concelho de Alvito (Lcaca), 2004] suspeitam, sem confirmação, que Água de Peixes 1 possa ser o local de uma villa romana. A via Ebora-Pax Julia, vinda de Viana do Alentejo e Hortas Velhas (Carneiro, 2008), entraria nos terrenos da herdade perto do forno de Vale Travisco. Daí seguia na direção do paço, junto ao qual infletiria para sul, seguindo pela várzea da Horta dos Pisões, com o ribeiro de “Olho de Pedro” sempre por perto, antes de, poucos quilómetros adiante, cruzar a ribeira de Odivelas pela monumental ponte de Vila Ruiva. Ainda de acordo com Carneiro (op. cit.), contrariamente ao que sucede no território de Évora, até Nossa Senhora de Aires, não se conhecem aqui miliários e a sua construção é bastante rudimentar, podendo confundir-se com um qualquer caminho posterior. Ainda hoje este troço, “herdeiro” dessa importante via, que em tempos mais recentes foi Estrada Real e Canada, é conhecido dos locais por “Calçadinha”, bem assim o próprio ribeiro e o porto que o cruza, onde ainda são visíveis, para além de vestígios de calçada, cinco poldras alinhadas e regularmente espaçadas, que continuam, em alturas de maior caudal, a permitir o atravessamento a pé enxuto desta linha de água. No seu leito, poucos metros a jusante, jazem dois possantes blocos formados por pedra e tijolo argamassados. A sua configuração faz lembrar a dos talha-mares e remete-nos para as referências, em várias fontes, a quão generoso podia ser o caudal e endiabrada a corrente deste ribeiro, alimentado pelo manancial de “Olho de Pedro”.

 

Minas e Fornos Na folha de Viana do Alentejo da “Carta Geológica de Portugal” estão sinalizadas, na herdade de Água de Peixes, quatro explorações mineiras abandonadas, situadas ao longo do seu limite oriental. Aí se pesquisaram pequenas concentrações de ferro e chumbo. De acordo com Feio e Diogo (Lcaca, 2004), em época romana e baixo medieval.

O senhor António Letras falou-me destas explorações. Porque as conheceu bem, enquanto locais de distração na sua mocidade, destacou as duas situadas mais perto do palácio, junto ao qual residiu… A mina da Balcinha (a 100 metros do lado direito da estrada Água de Peixes-Albergaria dos Fusos) e a mina da Calçadinha (500 metros a SO daquela). Encontrei-as com facilidade, porque no terreno não se apagaram por completo as marcas da antiga atividade extrativa. A sua tipologia é idêntica. Em ambas foram abertas trincheiras no flanco de colinas, para acesso a galerias subterrâneas. Um poço estabelecia a sua comunicação com o cimo dos outeiros. Atualmente, apenas a galeria da mina da Balcinha, com menos de 10 metros de extensão, se mantém desimpedida. Na mina da Calçadinha, para além de trincheiras, indiscretas na paisagem, uma pequena depressão no alto da colina denuncia a presença do poço, agora obstruído. Ao seu redor, ainda abundantes, vêem-se pedaços de minério que, num passado mais ou menos remoto, terão sido de valor para as comunidades que por aqui andaram.

Mas o subsolo de Água de Peixes encerra outros recursos, até não há muito tempo importantes mais-valias. Sobretudo, na metade ocidental da herdade, em estreitas faixas de orientação norte-sul, afloram calcários, dolomitos e rochas calco-silicatadas. Estas rochas de cor clara, se comparada com a dos vizinhos afloramentos de xistos e quartzitos negros, estarão na origem do topónimo “Penas Alves”, que poderá resultar da corruptela de “Penhas Alvas’”, ou seja, fraguedos alvos. Numa conversa com o senhor António Letras chegou a confirmação... “Penas Alves” corresponde a dois cabeços que, apesar de modestos, sobressaem na paisagem. Dali se tirava pedra de cal para o forno de Vale Cortiço, localizado no limite SO de Água de Peixes, junto à extrema com a herdade da Mascarra… Para além deste, em Água de Peixes existiam outros dois fornos de cal. O de Vale Travisco, a NE, junto à extrema com a herdade de Ferreira Monteza e Capella, o mais bem preservado, e o do Sarnado, no extremo norte de Água de Peixes, perto da extrema com a herdade de Berruxos. No tempo em que Água de Peixes era administrada pelo doutor António José Marques (1925-1946) e, depois, por Nuno Marques, seu filho (1946-década de 1960), estes fornos estavam arrendados, acrescentou o senhor António, que se lembra ainda de um dos rendeiros do forno de Vale Cortiço, um homem de Alvito chamado Fernando Chibo. A renda era paga em cal, que revertia para a casa, para as suas precisões, sendo nesse tempo muito utilizada na composição de argamassas.

 

A mata do Cerrado Outra fonte de proveitos em Água de Peixes foi, durante séculos, a afamada mata do Cerrado, arvoredo impenetrável a que os locais acabaram chamando “Sernado” ou “Sarnado”… assim ficando registado, nomeadamente, na cartografia que foi sendo publicada. Localizava-se a norte do palácio, ocupando os terrenos dos dois lados do caminho que sai das suas vizinhanças em direção a Viana do Alentejo.

Já em documentos do século XIV se alude a esta mata, em referências à abundância de caça. O seu valor, também enquanto fonte de lenha e de madeira, colocou-a no centro de repetidos conflitos que, nos séculos XIV e XV, eclodiram entre as populações de Alvito e Viana, insistentemente reclamando o livre acesso àquele espaço e aos seus recursos e os senhores de Água de Peixes, a quem interessava que as suas terras fossem coutadas. A conflitualidade chegou a tal grau que tiveram de ser os próprios monarcas (D. Pedro I; D. Afonso V) a arbitrar as discórdias.

Mas é dos séculos XVIII e XIX que chegam, explícitas, referências à localização, extensão e características da mata do Cerrado.

O padre Luiz Cardoso, em o Diccionario Geografico ou Noticia Historica (…) (1747, Tomo I, p.80), diz a seu respeito: “Tem esta villa huma grande mata, chamada o Cerrado da Agua de Peixes, que consta de muitos azinheiros, sobreiros, enlaçados de grande silvedo, esteval, e medronhal, que pelo denso se faz impenetrável; e por essa causa cria javalis, lobos, corços, veados, rapozas, e grande quantidade de lebres, perdizes, e coelhos. Tem esta mata meya legua de comprido, e hum quarto de largo: toda he coutada do mesmo Duque [referência a Jaime de Mello, 3.º duque de Cadaval (1684-1749)]”.

Mais de um século depois, Pinho Leal, em Portugal Antigo e Moderno (1873, vol. 1, p.30), haverá de decalcar aquelas palavras, apenas acrescentando: “[Água de Peixes] Tem proxima uma grande matta, chamada Cerrado d´Agua de Peixes […] Tem 3 Kilometros de comprido e 1:500 metros de largo. Esta matta chega até aos olivaes de Vianna”.

Já perto do final do século XIX, a “Carta Agrícola do Concelho de Alvito” (Pery, 1883) é expressiva quanto ao uso do solo na herdade de Água de Peixes. Perto de 970 hectares, cerca de 90 por cento da superfície da herdade, mantinham-se ocupados por montados. Destes, 699 hectares (72,4 por cento) eram de sobro e 267 hectares (27,6 por cento) de azinho. As culturas arvenses de sequeiro (trigo, cevada, aveia e centeio) ocupavam então uma superfície de 75 hectares, isto é, não mais de 7,0 por cento da área da herdade.

Na passagem para o século XX, por uma conjugação de fatores, assistiu-se no Alentejo a um recuo significativo dos matos (Feio, 1997; Ferreira, 2001). A mancha do “Sarnado” que ocupava a área do lado direito do caminho Água de Peixes–Viana do Alentejo terá sido arrancada nessa altura… Há mais de cem anos, assegurou-me o senhor António Letras, que o ouvira aos “antigos”. Não foi no seu tempo! Mas disse lembrar-se ainda das “nódoas” de terra calcinada deixadas pelos muitos fornos de carvão em que a brenha se transmutou. Justamente na área que surge designada por “Limpa do Sarnado” no “Cadastro Geométrico da Propriedade Rústica”, realizado pelo Instituto Geográfico e Cadastral, com os apuramentos de 1948. Também a “Carta Agrícola e Florestal de Portugal,” dos Serviços de Reconhecimento e de Ordenamento Agrário, com trabalho de campo de 1951, dá conta dessa alteração no uso do solo, assinalando culturas arvenses do lado direito do caminho Água de Peixes-Viana do Alentejo, na área que em 1883, de acordo com Pery, estava ocupada pelo “Sarnado”. Hoje é a mais extensa superfície limpa de arvoredo de toda a herdade (cerca de 215 hectares, o equivalente a 20 por cento de Água de Peixes).

A última mancha do “Sarnado”, localizada do lado esquerdo daquele caminho, acabou arrancada já em meados do século XX, por iniciativa de Nuno Marques, após a morte do pai em 1946. Depois do desmatamento, a que terão resistido pouco mais de dois hectares, sobranceiros à nascente de “Olho de Pedro”, a lenha foi vendida a carvoeiros, que ali mesmo fizeram os fornos. Um desses homens era de Albergaria dos Fusos, muitos outros vieram do Ribatejo, relatou-me o senhor António… Ao que a dona Joaquina acrescentou, em jeito de chacota… chamávamos-lhes “pegachos”. Porquê?... Não sei, disse-me a rir. Fui investigar... Porque eram homens que vinham da aldeia do Pego, no concelho de Abrantes, onde a carvoaria e os carvoeiros fazem parte da história e da cultura da aldeia e dos seus habitantes. O abate das árvores fez-se com o conhecimento do Estado e o consentimento do proprietário, o conde Alvise Emo Capodilista (1898-1980), viúvo de Maria Henriqueta Alvares Pereira de Melo (1896-1930), irmã de Nuno Alvares Pereira de Melo, 9.º duque de Cadaval (1888-1935). A contrapartida terá sido plantarem-se novas árvores. E assim aconteceu. Fez-se o plantio de novos sobreiros, azinheiras e também de eucaliptos e nogueiras. Contudo, o que haveria de constituir maior novidade e muito espanto foi a plantação de um figueiral com cerca de 70 hectares. O senhor António lembra-se que os figos eram vendidos a António Sabarigo, de Albergaria dos Fusos, que os comprava nas árvores. Mulheres por sua conta procediam à apanha, sendo depois os figos secos e comercializados. Mas as figueiras não se terão dado bem ou a sua condução não terá sido a melhor, numa altura em que a gestão de Água de Peixes acusava já evidentes dificuldades. Por isso, desse figueiral, sucessor do que tinha restado da mata do “Sarnado”, mais não sobrou do que a sua presença na “Carta Agrícola e Florestal de Portugal” e uma ou outra árvore perdida na paisagem, a lembrar, ainda hoje, um projeto falhado, prenúncio da decadência de Água de Peixes enquanto herdade próspera, plurifacetada e assente na utilização da sua maior riqueza… a água…

Referências bibliográficas:CARNEIRO, André (2008) – Itinerários romanos do Alentejo: uma releitura de “As grandes vias da Lusitânia – o itinerário de António Pio” de Mario Saa, cinquenta anos depois. 2.ª ed. Lisboa. Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, 137p.FEIO, Mariano (1997) – Os principais tipos de utilização do solo no Alentejo Meridional. Evolução de 1885 a 1951. Finisterra, XXXII, 63. C.E.G., Lisboa, p.p.147-158FERREIRA, Denise de Brum (2001) – Evolução da paisagem de montado no Alentejo interior ao longo do século XX: Dinâmica e incidências ambientais. Finisterra, XXXVI, 72. C.E.G., Lisboa, pp.179-193.VIANA, Abel (1951) – Misericórdia de Vila Ruiva. Arquivo de Beja. Boletim da Câmara Municipal. Vol. VIII, Fascs. I-IV, p.3-69.

Comentários