Texto | João Taborda | Professor
No Portugal de meados do século XX, a população ativa empregue no setor primário rondava os 50 por cento, reflexo de uma sociedade de matriz rural, em que a atividade industrial permanecia embrionária. Vila Alva reproduzia este cenário, amplificando-o… No final da década de 1940, a sua população, mais do triplo da atual, ocupava-se maioritariamente nas tarefas do campo. Perto de 85 por cento dos seus chefes de família eram proprietários e jornaleiros, sendo residual o número daqueles que não viviam da agricultura, da criação de gado ou dos recursos da floresta, fosse nas fileiras da produção, fosse nas da transformação.
“Fabrico de uva” e produção de talhas Como se deduz de documentação antiga, alguma recuando a inícios do século XIV, e que outra mais recente (séculos XVII a XIX) continuou confirmando, a cultura da vinha sempre aqui terá ocupado um lugar de destaque. Sobre a Vila Alva de antanho é comum ler-se “He abundante de vinho”… “O fruto da terra, que os moradores recolhem em maior abundância, é vinho das uvas, porque a fábrica das vinhas é a sua maior cultura”… “Recolhe muito vinho”, ou, ainda,… “o vinho aqui produzido é o melhor do districto” (ver “Diário do Alentejo”, de 2 de novembro de 2018, p.16-17).A importância das vinhas, que até não há muito tempo tinham o seu solar na depressão justamente conhecida por… “Vinhas”, a meio caminho entre Vila Alva e Vila de Frades, pode avaliar-se, também, por exemplo, pela existência dos chamados “Vinheiros” ou “Guardas das Vinhas”, instituição que entrou pelo século XX adentro e que, por isso, os mais velhos ainda recordam. Era nos meses de junho e julho que se procedia à sua nomeação. Incumbia-lhes a guarda dos frutos temporãos, frutos do cedo, de caroço, como ameixas, abrunhos, mas também as peras, etc., e por isso eram conhecidos por “guardas do cedo”. Para mais tarde, para salvaguardarem as uvas… riqueza maior… na fase derradeira da sua maturação, eram nomeados os “vinheiros da guarda do tarde”. As propostas para guardas, feitas pelos proprietários das vinhas, seriam levadas a sessão de câmara e aí aprovadas. Foi, por exemplo, o que aconteceu na sessão de 26 de junho de 1884: “Sob proposta do Sr. Vereador Godinho [o vilalvense António Inácio dos Santos Godinho], fez a Camara as nomeações dos vinheiros da guarda do tarde nas vinhas de Vila Alva, as quaes recahiram nos seguintes indivíduos: Manuel Pinto, para a guarda da Laje = Francisco Larau[?], para a Fonte da Morte = Antonio Pedro Rocha, para o termo de Beja baixo = Joaquim Miguel Palma, para o termo de Beja do meio = Manoel Rosado Pernicha, Malquebrão = Constantino Jose, para a Ribeira = José Ramalho, para Valladas = José Pinto Calhalha, para as Pedras = Joaquim Rachadinho, para a Casa = José Manuel Ferreira, para os Figueiraes = Pedro Cavalheiro, para S. Bartholomeu = Alvaro José, para a Lagoa = e José Coelho para as Galliadas”.Conhecem-se, de outras sessões (7 de janeiro de 1893; 20 de julho de 1894, por exemplo), queixas veementes de viticultores de Vila Alva, relativas a abusos constantes provocados pelo grande número de caçadores e pelos muitos cães que invadindo as vinhas provocavam avultados prejuízos nas uvas. A câmara, mantendo “(…) em vigor todas as desposições do regulamento para nomeação de vinheiros constantes do codigo de posturas municipais de oito de Maio de 1859 (…), e bem assim as desposições respeitantes aos vinheiros constantes do codigo de posturas municipais de 30 d’Outubro de 1884 (…)”, criou, na sua sessão de 20 de julho de 1894, uma postura municipal adicional, que definia, para o período compreendido entre 1 de julho e 15 de outubro de cada ano, um conjunto de proibições e de multas, com o propósito de desencorajar aquelas situações.Mas, se a presença e a importância das vinhas em Vila Alva estão bem documentadas, tal acontece igualmente com os lugares de “fabrico da uva”. Para além de referências a adegas, bem como ao número e capacidade das suas talhas, presentes em inúmeras escrituras e outros instrumentos, são recorrentes as alusões a lagares e a lagariças em Vila Alva. No Alentejo, estes termos, ainda que usados sobretudo no contexto da produção de azeite, podem estar também associados ao fabrico do vinho. É o que confirma, por exemplo, um documento datado de 1857, em que é feita referência a um lagar de “fabricar uva”, cito na Rua do Outeiro do Vale das Hortas (…) aforado a José Filipe Taborda.Muitos outros registos, já de inícios do século XX, continuam a certificar a relevância socioeconómica que a vinha e o vinho aqui mantinham. Na ata da sessão ordinária da Junta de Paróquia de Vila Alva, de 25 de agosto de 1907, pode ler-se, a propósito de uma crise na produção e da miséria em que os vilalvenses se encontrariam: “Hoje é a penuria, sempre certa nesta quadra do anno por força de falta de trabalho rurais (sic); amanhã será a fome com todo o seu cortejo de horrores. Ás crises gerais, de que enferma a economia do país, acrescem outras especiais (…) Foi como é notório escacessima a colheita da cultura cerealífera e insignificantessima será e tristemente certa a safra dos vinhos, que constituem a principal riquêsa desta localidade, sempre notada pelos nossos anologos (sic) pela excelencia dos vinhos (…)”.Mais perto de nós, o cultivo da vinha e a produção de vinho (de talha) mantiveram-se como motores da economia e da vida social e cultural dos vilalvenses. Assim o demonstrou Daniel Parreira em Vila Alva. Terras de Vinho, um rigoroso levantamento que permitiu inventariar cerca de 70 adegas a laborar em Vila Alva, ainda em meados do século passado. Entre as cerca de 200 talhas identificadas por Daniel Parreira nas atuais adegas de Vila Alva, mais de 70 são de cimento, das quais, a testemunhar pelas respetivas marcas, perto de 40 exemplares são de produção local. Nas décadas de 1920 e de 1930 a escassez de vasilhas, mormente em anos de muita uva, e a inexistência de centros de produção de talhas de barro próximos, aliadas ao advento de novos materiais e técnicas de fabrico, impulsionaram o aparecimento, em Vila Alva, de um centro de produção de talhas em… cimento armado. Como demonstrou Daniel Parreira, tal ficou a dever-se ao espírito de empreendedorismo de três homens… José António Cançado, António Joaquim Marques e António Esteves, o “Gansa”, vilalvenses os dois primeiros, natural da vizinha Vila Ruiva o último. José António Cançado terá sido o pioneiro. Na lembrança de alguns vilalvenses sobrevive ainda o dizer: “Talhas em cimento armado… feitas pelo Zé Cançado!”… que sugere a qualidade dos contentores deste fabricante, a que também aludem anúncios publicados no jornal “O Cubense”, na segunda metade da década de 1920. De início, com José Cançado trabalhariam António Joaquim Marques e o “Gansa”. Mas, no início da década de Trinta, incompatibilidades tê-los-ão levado a iniciar produções separadas. Por terem trabalhado com José Cançado e, eventualmente, com ele terem aprendido esta arte, a geometria e a cor das talhas destes três produtores são muito semelhantes.Como concluiu ainda Daniel Parreira, as talhas de cimento armado seriam produzidas no interior das adegas de quem as encomendava, sendo fabricadas com recurso a moldes de madeira, forrados com chapas metálicas que serviam de cofragem. Ao invés das talhas de barro, que poderiam levar meses a fazer, as de cimento, incluindo a operação de betonagem, eram fabricadas em dois ou três dias. Inês Vaz Pinto localizou, no final dos anos Noventa do século passado, num terreno às portas de Vila Alva, alguns desses moldes, jazendo ao abandono, quais monos sem valor…Entretanto, outras atividades de transformação ligadas a outros tantos produtos da trilogia agricultura, criação de gado e silvicultura, foram marcando presença em Vila Alva, entre finais de Oitocentos e a primeira metade do século XX. É o caso dos lagares e da produção de azeite, das fábricas de cortiça, de curtumes e das moagens de trigo.
Olivais, lagariças e lagares O olival e o azeite, não tendo a mesma expressão espacial, socioeconómica e até mesmo cultural da vinha e do vinho, fazem igualmente parte da geografia e da história de Vila Alva e do seu termo, como o comprovam evidências materiais e testemunhos documentais. Alguns exemplos… Numa escritura, datada de 1793, há referência a uma lagariça, de António Lopes Samora, cita na rua do Zambujeiro. Num documento de 1836 fala-se de um foro “imposto em huma lagarissa no principio da Rua da fonte (…) que he obrigado a pagar anualmente pelo São Martinho Caetano Joze de Mira Xaveiro”. Finalmente, num documento de 1890, surge uma alusão à… “quina” do lagar da Fonte. Referir-se-ão estes dois últimos casos a uma mesma unidade de transformação e, segunda questão, poderão as duas grandes pedras abandonadas junto ao antigo Largo da Fonte, atualmente enterradas sob um monte de escombros, juntamente com uma velha pia, entretanto desaparecida, ter pertencido a essa velha lagariça ou lagar? Aqui voltaremos…Entretanto, a toponímia, quando tudo o mais desapareceu, teima em perpetuar lembranças… Em Vila Alva, tal é o caso, por exemplo, da antiga travessa dos… Lagares. Aí existiu um velho lagar de varas, que há umas décadas só os mais antigos ainda recordavam. Situava-se numas casas ali onde aquela travessa encontra as ruas da Misericórdia e a Nova que lhe dá seguida. Outro, também de varas, muito antigo, localizava-se onde agora são uns casões pertencentes a José Francisco Palrão, na antiga rua das Vinhas, à mão esquerda de quem entra na vila… contaram-me António Carvalho e António Lança (o “Algarvio”), homens já de 90 anos feitos. A este pedi que me falasse de um outro, já mecânico, que ficava também na antiga travessa dos Lagares – e daí o plural – fronteiro à velha rua de Lisboa. Começou a funcionar em 1947, assegurou-me… e seguiu desfiando aquilo de que se lembrava… porque lá trabalhou durante anos… Que resultou de uma sociedade entre Leonardo de Mira e José Abrantes, homens da terra, abonados, e um tal a quem chamavam Almeidinha, de Porto de Mós, que terão comprado e modernizado um velho lagar já aí existente, pertencente às irmãs Joaquina e Prudência Baptista, senhoras abastadas, que na terra ainda hoje são recordadas como… as “Menores”! Em 1972 passou para as mãos de José Morais de Almeida e de Inácio Pinto Caeiro, que o mantiveram em funcionamento sob a denominação “Sociedade Lagar Vila Alva, L.da”. Aqui chegado, António Lança fez recuar a conversa aos seus princípios no lagar… “Fui para lá trabalhar com os meus 18 anos, por volta de 1952”. Nos primeiros tempos, o lagar moía azeitona de Vila Alva. A maior parte do olival que então existia na freguesia ficava nas “Vinhas”, entremeado com velhas cepas, num mosaico riquíssimo a que se juntavam frescas hortas e laranjais. Tirando essas oliveiras – algumas milenares, autênticos monumentos, hinos à resiliência e a uma vertical dignidade –, pouco mais olival havia para além do, também já velho, das “Menores”, que ainda hoje desce a ladeira do Outeiro da Forca até à Fonte de Santo António, e o da Herdade do Zambujal, pertença do grande lavrador José Cappas. Era esta uma realidade herdada de séculos passados e que Gerardo Pery, em 1883, aqui veio testemunhar. A área total de olival na freguesia de Vila Alva era, então, de 438 hectares, dos quais 376, quase 86 por cento, em associação com a vinha. Mas regressando ao lagar, já no tempo de Morais de Almeida e do seu sócio a azeitona que nele entrava provinha de Vila Ruiva, Albergaria dos Fusos, Cuba, Vila Nova da Baronia, de Viana do Alentejo e de Pedrógão, e até de Moura. Começava-se a trabalhar nos finais de novembro, princípios de dezembro. Anos houve em que chegaram a entrar mais de 300 toneladas de azeitona, laborando-se até princípios de março. Era um lagar pequeno, faz notar o “Algarvio”… tinha quatro prensas, moía pouco… oito a nove mil quilogramas por dia, no máximo. Cem quilos de azeitona galega, outras variedades eram a maçanilha e a bical, davam, em média, cerca de 14 litros de azeite. Em 1962 apresentou um rendimento ilíquido tributável de 11.000$00.O trabalho ocupava uns 10 homens, quase todos de Vila Alva. Dois carregavam a azeitona em carros de mão, até ao sem-fim. Outros dois, à entrada, procediam à pesagem, descarregando-a nas seis tulhas existentes, onde ficava aguardando. Havia o “sementeiro”, que, de um saco, lançava sal sobre a azeitona, para a conservar. Dois outros homens tratavam da “massa”. Dois estavam incumbidos do bagaço e dois batiam capachos com paus. Um homem estava encarregue do azeite – o Mestre do Azeite – e um ainda tinha a função de encarregado. “Levei 22 anos de encarregado no lagar, mas entrei a bater capachos”, recorda o “Algarvio”, de olhar distante, como que perscrutando um tempo e um espaço sumidos… lá muito ao fundo. Ganhava 17 escudos por dia… 22 escudos já depois do 25 de Abril de 1974. Pouco tempo depois o lagar foi “apanhado”, expressão do meu interlocutor… juntamente com o de Vila Ruiva… Fechou portas nos finais da década de 1970… e após uma breve pausa… talvez inícios da seguinte... … “Por isso, ainda moço, lá entrei. Guardo o barulho das máquinas, a labuta dos trabalhadores, a atmosfera sombria, o cheiro espesso e quente do bagaço e as ceiras exsudando azeite”. Quem o comprou e desmantelou conta que funcionava ainda em perfeitas condições… Daria um notável espaço museológico… mais um que Vila Alva deixou escapar! O seu destino confundiu-se com desprezo, na forma de ferro-velho… seguido de um subproduto do tempo… o esquecimento… Ainda assim, ficaram em Vila Alva várias mós e… um par de possantes pedras que, tanto pela sua forma paralelepipédica, como pelo conjunto e configuração dos orifícios que apresentam, muito se assemelham aos dois exemplares do largo da Fonte (de São João) atrás referidos. Deste modo, é legítimo pensar-se que estas duas pedras possam ter pertencido à lagariça/lagar (de azeite) que outrora ali por perto existiu. Seria, por isso, interessante exumá-las do entulho que, há pouco anos, descuidadamente as ocultou e expô-las com alguma dignidade, quem sabe se no atual largo da extinta Fonte de São João… já que tudo o mais ali se perdeu, na voragem do tempo… Fica o desafio!... Crente de que o passado, vazado no presente, é nascente de… futuro!
Agradecimentos:– Alberto Serrano (vice-provedor) e Valter Santos (técnico superior) da Santa Casa da Misericórdia de Vila Alva. Pela autorização e facilidades no acesso ao arquivo histórico da instituição;– António Joaquim Lança e António José Carvalho. Pela partilha de preciosas informações orais;– Sofia Mósca (Biblioteca e Arquivo Municipais de Cuba). Pelo extremo profissionalismo;– Ordem dos Arquitetos. Pela utilização da imagem: Casa de taipa. Vila Alva, Cuba, Beja, 1955. Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa.