A propósito da “situação particularmente difícil” vivida pela Santa Casa da Misericórdia de Serpa, nomeadamente, a nível financeiro, o “Diário do Alentejo” apresenta uma breve cronologia dos últimos 13 anos, iniciada em 2013, ano em que a Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo, a instituição e a Administração Regional de Saúde do Alentejo fecharam o dossiê relativo ao retorno do Hospital de São Paulo à misericórdia, um processo amplamente criticado. Desde outubro de 2025, a Misericórdia de Serpa tem a decorrer um processo especial de revitalização (PER), “como via para enfrentar o agravamento da sua situação financeira”.
2013
abril
- A Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo (Ulsba), a Santa Casa da Misericórdia de Serpa (SCMS) e a Administração Regional de Saúde (ARS) do Alentejo reúnem-se para fechar o dossiê relativo ao retorno do Hospital de São Paulo à misericórdia. A instituição tem a intenção de continuar com o serviço de atendimento permanente (SAP), vulgo “urgências”, aberto durante o período noturno e melhorar alguns dos serviços do hospital.
outubro
- São publicadas em “Diário da República” as regras para a devolução às misericórdias dos hospitais integrados no setor público em dezembro de 1974. O hospital de Serpa é uma das 10 unidades de saúde que, numa primeira fase, será entregue. Os trabalhadores “com relação de emprego público” que prestam serviço no hospital passarão a ser remunerados pela SCMS e exercerão funções “ao abrigo do acordo de cedência de interesse público”, mas “mantêm o seu estatuto de origem incluindo a opção pela manutenção do regime de proteção social”.
- O presidente da Câmara de Serpa contesta a transferência do hospital, considerando que tal poderá levar à perda de serviços. Tomé Pires defende que a unidade deverá continuar sob a alçada do Ministério da Saúde, “dando cumprimento ao direito à saúde para todos, que está consagrado na Constituição”. Mário Simões, deputado do PSD eleito por Beja, confirma que o acordo de concessão da exploração do hospital à SCMS apenas está dependente de “pormenores”.
dezembro
- Duas unidades de cuidados continuados integrados, uma de média e outra de longa duração, com capacidade total para 30 doentes dependentes, são inauguradas pela SCMS, num investimento de três milhões de euros – financiado em 77 por cento pela misericórdia e em 25 por cento pelo programa Modelar, com o apoio da Câmara de Serpa, que cedeu o terreno e executou os arranjos exteriores. As duas unidades, integradas na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, permitiram criar cerca de 30 postos de trabalho.
2014
abril
- O deputado do PS eleito por Beja, Luís Pita Ameixa, alerta para a eventual “degradação dos serviços” do hospital, após a prevista devolução à misericórdia, devido à obrigação de gastar “menos 25 por cento do que é gasto atualmente”, o que pode ser problemático para as finanças da SCMS.
novembro
- A ARS Alentejo e a Misericórdia de Serpa assinam um acordo que visa a devolução, em janeiro de 2015, do Hospital de São Paulo à instituição de solidariedade social, visando o “reforço da acessibilidade e a disponibilização de mais serviços aos utentes”. A ARS Alentejo garante que serão ativadas “a prestação de cuidados de saúde hospitalares, para além de cuidados continuados e de algumas consultas de urgência”. O SAP funcionará 24 horas por dia e serão disponibilizadas consultas externas de cardiologia, dermatologia, fisiatria, oftalmologia e ortopedia. A partir de 2016 entrará em funcionamento um bloco operatório para cirurgias de ambulatório nas especialidades de dermatologia, oftalmologia e ortopedia. A câmara continua a discordar da transferência. Os enfermeiros são “apanhados de surpresa”. Segundo Margarida Silveira, presidente do conselho de administração da Ulsba, em relação aos 51 trabalhadores que exercem a sua atividade na unidade de saúde, aqueles que têm contrato de trabalho em funções públicas poderão optar por permanecer ligados à Ulsba e serão integrados na estrutura, os que têm contrato de trabalho individual passarão a depender da SCMS. A provedora Maria Ana Pires refere que aceitou “o desafio proposto pelo Governo para a devolução do hospital” convicta “de que esta decisão se refletirá numa mais-valia para a população do concelho” e não só. A responsável espera que a “ampliação do programa assistencial prevista no acordo” constitua “uma alavanca para o desenvolvimento sustentável da cidade de Serpa”.
- O presidente da Federação do Partido Socialista do Baixo Alentejo, Pedro do Carmo, considera que entre os riscos causados pelo processo está “a transferência dos serviços de cirurgia ambulante do hospital de Beja para o de Serpa”, o que, na prática, “significa uma privatização deste serviço com consequências diretas para os doentes e, ao mesmo tempo, para a boa gestão económica da Ulsba, que tem nesse serviço uma das suas principais fontes de receita”.
2015
janeiro
- Duas semanas depois da transferência do hospital, o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses acusa a nova administração de ter diminuído o número de enfermeiros por turno e, com isso, pôr em causa “a qualidade de cuidados prestados aos doentes internados e que ali recorrem à urgência básica”. A provedora nega a acusação, dizendo que “até houve um reforço” do quadro de enfermeiros. Maria Ana Pires adianta que o hospital tem funcionado com profissionais do quadro da Ulsba, no entanto, garante que estão “a tentar cativar outros médicos” para formar uma equipa própria.
junho
- Seis meses após a transferência ainda não tiveram início as consultas das especialidades previstas no acordo, devido ao atraso no processo de transferência de comunicações e serviços informáticos. Ainda assim, a provedora faz um balanço positivo dos primeiros seis meses de gestão privada, admitindo, no entanto, que “o serviço prestado está aquém da estratégia delineada”.
dezembro
- Os enfermeiros que transitaram da Ulsba para a SCMS exigem o pagamento de feriados, folgas e dias de férias não gozados em 2014, quando o hospital ainda se encontrava em gestão pública. A Ulsba diz que a pretensão dos trabalhadores não é “exequível” e a SCMS lembra que a sua responsabilidade patronal só começou a 1 de janeiro.
2016
janeiro
- O Ministério da Saúde anuncia a anulação do processo de transferência dos hospitais de Santo Tirso e São João da Madeira para as misericórdias e revela que irá “proceder à avaliação dos acordos de cooperação efetuados anteriormente”, nomeadamente, com o hospital de Serpa. Ao contrário do que fez o Governo de Passos Coelho, o novo ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes (PS), pretende “manter um diálogo ativo com as autarquias” e, “através da comissão de acompanhamento prevista nos contratos”, verificar a “eventual mais-valia para o interesse público” das transferências já efetuadas.
- O grupo parlamentar do PCP apresenta, na Assembleia da República (AR), uma proposta de lei que visa a reversão da gestão do hospital para a esfera do Ministério da Saúde.
dezembro
- Funcionários da SCMS queixam-se de atraso no recebimento dos vencimentos. De acordo com a provedora, o não pagamento, por parte da Ulsba, da produção assistencial segundo o acordo de cooperação, tem obrigado a instituição a “esforços titânicos” para honrar os compromissos mensais com os trabalhadores. A Ulsba justifica o atraso com “razões de disponibilidade de tesouraria”.