Diário do Alentejo

Crónicas do cante: Cante alentejano na diáspora!

07 de julho 2026 - 08:00
Grupo Coral da Casa do Alentejo em Luanda, Angola

O cante alentejano constitui um dos mais expressivos elementos de continuidade cultural das comunidades alentejanas radicadas fora da sua região de origem. Nos contextos migratórios, esta prática ultrapassa a sua dimensão artística para assumir um papel estruturante na preservação da memória coletiva, na reafirmação das identidades culturais e na manutenção dos laços de pertença entre diferentes gerações. Os grupos corais formados nas comunidades da diáspora transformam-se, assim, em espaços de sociabilidade, transmissão intergeracional e reprodução de um património imaterial que continua a encontrar significado mesmo quando desvinculado do seu território de origem.O cante alentejano na diáspora, afirma-se, assim, como um poderoso fator de agregação social e de coesão comunitária. Um elemento unificador e não fraturante. Dissipador de clivagens com a terra-mãe (Alentejo).Foi com este propósito, de aproximar e reunir o mais possível os alentejanos de Angola, que, em 1966, se fundou a Casa do Alentejo em Luanda, com um raio de ação muito focado na cidade e arredores. Não tardaria muito para surgir um grupo coral, composto por cerca de 14 homens, oriundos de diferentes pontos do Alentejo e que, entre 1969-1972, se constituiria da seguinte forma: António Batista (Póvoa de São Miguel, Moura), António Borralho (Safara, Moura), António Raposo (Alcaria Ruiva, Mértola), António Sequeira (Garvão, Ourique), Diogo Assunção (Grândola), Francisco Caeiro (São Pedro do Corval, Reguengos de Monsaraz), Jaime Rodrigues (Ervidel, Aljustrel), José Manuel Oliveira (Moura), José Romana (Santo Amador, Moura), José Ruivo (Alfundão, Ferreira do Alentejo), Manuel Franganito (Figueira dos Cavaleiros, Ferreira do Alentejo), Olímpio Carvoeira (São Matias, Beja), Raul Oliveira (Moura) e Victorino Batista (Póvoa de São Miguel, Moura). A maioria, senão todos, militares destacados em Angola no período acima referido.Foram estes homens que, em conjunto com o Quarteto da Casa do Alentejo – composto por António Cabaça (São Matias, Beja), Inocêncio Viriato (Mombeja, Beja) e outros dois já referenciados, Olímpio Oliveira e José Manuel Oliveira, também ensaiador –, deram voz à gravação de um disco conjunto, em 1972, intitulado “Cantares do Alentejo”.Nesse registo discográfico podem ouvir-se quatro temas: “Cantarinhas de Beringel”, “Alentejo és nossa terra” e “Fui um dia a uma caçada (Maria Rita), todos populares, e “Adeus Moura linda vila”, de autoria de José Coelho e Leonardo Mendonça. Com a chancela da Valentim de Carvalho, este disco assume particular relevância para o Arquivo Digital do Cante e para a história do cante. Pelo que se agradece ao senhor Henrique Petronilho, de Messejana, leitor assíduo do “Diário do Alentejo” e das “Crónicas do Cante”, que nos ofereceu um original desta relíquia para os nossos arquivos. O nosso propósito é disseminar informação e fomentar conhecimento, pelo que todos os materiais, a seu tempo, estarão disponíveis nas plataformas digitais. Entretanto, aqui fica o registo desta evidência em mais uma crónica do cante.

 

Florêncio Cacete Coordenador do Arquivo Digital do CanteCidehus/Universidade de Évoraflorencio.cacete@uevora.pt

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