Nascida na Ucrânia, Clarice Lispector viveu no Brasil desde os dois anos de idade. Primeiro Maceió, depois o Recife, finalmente o Rio de Janeiro, onde se notabilizou com escritora, jornalista e ensaísta. É um dos nomes incontornáveis da literatura lusófona. É dela uma frase deliciosa, escrita numa das suas primeiras obras, Água Viva, publicada em 1955, e que surge muitas vezes truncada, incompleta, não sei se de forma propositada para extrapolar interpretações, se por puro desconhecimento. Enfim, o texto, no caso uma tocante carta de amor – “(...) canto aleluia para o ar assim como faz o pássaro. E meu canto é de ninguém. Mas não há paixão sofrida em dor e amor a que não se siga uma aleluia (...)” – poderia aplicar-se a muitas outras circunstâncias da vida, quando por exemplo refere que “o próximo instante é o desconhecido”. Sucede que esta frase, assim lida, uma das mais citadas de Clarice Lispector, não está completa sem as duas interrogações que lhe sucedem: “O próximo instante é feito por mim? Ou se faz sozinho?” – escreve. São questões com as quais, pensando bem, nos confrontamos ao longo da vida e que determinam a forma como encaramos o quotidiano.
Somos nós que criamos o próximo instante ou teremos de nos conformar, de enfrentar, o que nos trará esse momento futuro? Seremos nós, à semelhança do conceito marxista de revolução, a locomotiva da nossa própria história, ou sujeitos passivos de um qualquer alinhamento dos astros? É uma reflexão interessante em tempos de incerteza como aqueles que vivemos, fruto do surto do coronavírus Covid-19 que tem hegemonizado os noticiários televisivos e feito as delicias dos tabloides, uns e outros apostados num sensacionalismo de cariz quase apocalíptico. Os medos surgem quando o próximo instante é o desconhecido (como irá evoluir o vírus? como me posso proteger? quão mortal será? quantas pessoas irá infetar?), ainda que já se tenha percebido que o vírus provoca, na esmagadora maioria das vezes, uma infeção semelhante a uma gripe comum, só raramente evoluindo para uma doença mais grave, como pneumonia.
Desde o início do surto, em finais de 2019, o Covid-19 provocou um pouco mais de três mil mortes em todo o mundo, mais de 2800 na China. É um número de mortes idêntico ao provocado pela gripe em Portugal no inverno do ano passado, segundo dados do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge. O mesmo organismo que nos informa que em Portugal, em 2019, foram registados 397 óbitos “atribuíveis a temperaturas baixas extremas”, ou seja, ao frio. Gripe e frio matam em Portugal mais de 3500 pessoas por ano. Nenhuma autoridade de saúde prevê que as consequências do Covid-19 atinjam idêntica proporção. E, no entanto, a preocupação continua presente no nosso quotidiano coletivo. O que se passará nos dias e nas semanas seguintes dependerá muito da resposta às questões colocadas por Clarice Lispector. Para não deixarmos que o próximo instante nos escape das mãos, há que agir com serenidade, recusar alarmismos, combater a desinformação e seguir as recomendações das autoridades de saúde.