Diário do Alentejo

Cláudio Torres - Um marinheiro de utopias
Opinião

Cláudio Torres - Um marinheiro de utopias

Manuel Camacho, engenheiro

29 de janeiro 2020 - 16:00

No dia 13 de maio de 1989 comemorávamos em Aljustrel os 15 anos do poder local democrático, pois tratava-se de enaltecer o primeiro ato para a organização administrativa local, que foi a eleição, em plenário muito participado da população, da comissão administrativa que iria gerir os destinos do concelho até à realização das primeiras eleições livres para as autarquias locais.

 

Nesse evento foi convidado de honra o professor Cláudio Torres, personalidade já enraizada na nossa região e portador de mensagens oportunas e fundamentadas sobre o papel que o poder local deveria assumir no propósito de a cultura não ser o parente pobre das opções a prosseguir. Recordo vagamente de ele falar que ao “esgravatarmos” no terreno encontrávamos ossos, espinhas e outros resíduos que nos conduziam para a compreensão dos modos de vida das populações ancestrais ocupantes desses lugares. Julgando eu que a arqueologia servia fundamentalmente para desenterrar estátuas, tesouros, capitéis e outros vestígios que punham a nu outras civilizações que, certamente, dominaram pela força os territórios em estudo.

 

Fui ao longo dos últimos 30 anos acompanhando, na medida do possível, o trabalho realizado em Mértola, sob a orientação e entusiasmo agregador de Cláudio Torres, através do Campo Arqueológico de Mértola, cujos resultados são por demais reconhecidos, transformando um pacato concelho numa pérola cintilante à beira do grande rio do Sul. O projeto ali desenvolvido merece a atenção e, por que não afirmá-lo, de modelo a prosseguir na procura de uma estratégia que concorra para a afirmação de valores que, por vezes, se encontram sonegados e falhos de visibilidade, justamente, por não haver a ousadia de perseguir uma utopia, que aparentemente se julga inalcançável.


Enquanto noutras paragens não muito distantes se destroem vestígios arqueológicos por incúria ou má-fé, ali prossegue uma estratégia que se consolida com a criação de uma dezena de museus e sítios, atraindo ao concelho mais de 50 mil visitantes anuais, quase 20 vezes a população de Mértola. O ambiente de esperança e de realização só foi possível com o contributo do visionário Cláudio e da sua equipa. Oxalá outros exemplos se repercutam na nossa região tão falha em imaginação e ousadia, na justa procura de soluções virtuosas que coloquem o nosso viver coletivo acima de estratégias minguadas e carentes de iniciativas, perpetuando e dando visibilidade aos nossos tesouros escondidos, em prol do desenvolvimento local.

 

Os reconhecimentos justos a ele prestados, de que vamos dando conta, são justamente o resultado da sua abnegação, do seu entusiasmo e da clarividência de um personagem ímpar do nosso tempo, que deixa marcas indeléveis na nossa região, mas também nas comunidades científicas onde pontuam diversas abordagens no seu percurso sobre as nossas origens, especialmente, do período islâmico.

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