Diário do Alentejo

Inimigo
Opinião

Inimigo

Luís Godinho, jornalista

01 de julho 2019 - 10:00

O noticiário das 20 corria célere. Como segunda-feira é (era?) dia de Manuela Moura Guedes fazer comentário na SIC, manda a prudência e o bom senso que atempadamente me certifique de seguir as “novas” do País e do mundo pelo olhar de outro de canal televisivo. Entre uma garfada de caril e a atenção necessária às questões familiares, a monotonia da “missa das oito”, como Adelino Gomes lhe chamou, é interrompida por uma frase numa peça sobre o reaparecimento de Rui Rio: “Um demasiado longo silêncio para quem faz oposição”. Um “demasiado longo silêncio”… coisas da TVI, está bem de ver.

 

Olhos postos no televisor, eis Rio a falar sobre a constituição de Álvaro Amaro como arguido: “Já me explicou o que entende que se passou, tem a certeza absoluta, diz-me ele, que não cometeu qualquer crime (…) os julgamentos devem ser feitos no tribunal e não na praça pública”. Nada mal para quem lidera um partido que fez do “caso Sócrates” a bandeira da mais recente campanha eleitoral. Mais uma garfada de caril e eis a pérola da noite. Dando por encerrado o tema de justiça, a jornalista decide avançar por matéria de natureza política: “Do lado do inimigo já se prometem aumentos na função pública”. Sem saber se o dito “inimigo” é o PS ou o Governo, presumindo tratar-se de coisa distinta, ou se o “inimigo” é todo aquele que promete aumentos na função pública, ou ainda se o “inimigo” será alguém de quem Rui Rio não goste, o jantar lá prossegue, já sem televisão mas com o lamento de ter sido novamente incauto. E, no entanto, isto de se apelidar de “inimigo” um adversário é revelador do estado a que chegou o jornalismo e uma certa forma de fazer política.

 

Não resisto a recordar uma velha história de Winston Churchill que vem sempre à liça quando se fala de inimigos e de política. Conta-se que certo dia Churchill recebeu na bancada do Partido Conservador em Westminster um jovem deputado, eleito pela primeira vez, que, ao olhar em frente, viu os deputados trabalhistas e comentou: “É ali que estão os nossos inimigos”. Churchill corrigiu-o: “Ali sentam-se os nossos adversários, os nossos inimigos sentam-se aqui, ao nosso lado”. Não sei se a história é verídica mas, além de ter piada, cumpre o propósito de chamar a atenção para o erro de se classificar o outro como “inimigo”, seja porque este defende ideias contrárias às nossas, é adepto de um outro clube de futebol ou tem interesses dos quais discordamos. Resumir a política e a intervenção cívica a nós contra eles, a aliados e inimigos, a bons e maus, é contribuir para a degradação da vida pública e para o crescimento dos populismos. Na maior parte das vezes, o nosso verdadeiro inimigo não é quem discorda de nós, é aquele que vimos quando todas as manhãs nos olhamos ao espelho, ou quem se encontra sentado ao nosso lado, como terá dito Churchill. Bem sei que vão longe os tempos em que Aristóteles se referia à política como tendo o principal objetivo de “criar a amizade” entre os habitantes de uma cidade. Façamos com que ela possa, ao menos, ser a arte do compromisso.

Comentários