Diário do Alentejo

Um rio imaginário
Opinião

Um rio imaginário

Manuel Camacho, gestor

15 de outubro 2020 - 09:50

Quase todas as terras possuem um largo ou uma praça emblemática, onde se traduz o pulsar das maiores vivências dos seus habitantes, pois ali normalmente existem as principais estruturas do concelho, como os edifícios dos órgãos administrativos e dos religiosos, a maioria do comércio local, eventualmente a estátua da figura de maior realce do concelho ou de algum dos símbolos mais proeminente e, normalmente, possuem arranjos ajardinados conferindo-lhe uma justa dignidade. Afinal, trata-se da “sala de visitas” da comunidade.

 

Aljustrel não possui esse local com as características descritas, pois a enumeração que foi feita está disseminada numa extensa artéria da vila, assemelhando-se a mesma a um “imaginário rio” que atravessa um vale entre as duas proeminentes colinas, percorrendo o antigo traçado da Estrada Real 75, que ligava as vilas de Ferreira do Alentejo e Odemira. Quem serpenteia esta extensa via confronta-se com as mais diversas novidades, desembocando também nela, como afluentes, a nascente e a poente, outras ruas secundárias, funcionando a mesma como a mais natural atração para as suas gentes.

 

Ao longo deste trajeto existem imaginários “cais”, tais como, praças acolhedoras e largos, funcionando como estações duma hipotética viagem, como sejam: o jardim da Praça Dr. Manuel Arriaga, a confluência da Rua 5 de Outubro com a Rua José Francisco da Silva Álvaro (onde antigamente era o início da via principal da vila, desembocando no Largo do Poço Enxabido e continuando pela Rua Cândido dos Reis – apelidada então como a Rua dos Nobres, terminando na Praça 13 de Janeiro junto à igreja da Misericórdia, onde, em tempos mais recuados, se erigia o pelourinho), o Largo da República e o emblemático Largo do Mercado, vulgo Largo do Aliança.

 

Na Rua de Messejana, num dos troços desta via, residia o popular mecânico Luís Furão (que se gabava, devido aos seus virtuais conhecimentos, conseguir livrar da tropa todos os deficientes da nossa terra), dizendo com muita graça que a sua rua era um autêntico jardim zoológico, pois nela, para além dele, um Furão, habitavam também um Zorro, um Leão, um Gato, um Perdigão, um Pinto, os Coelhos, o Corujo e ainda as irmãs Perdigoas.

 

Seria exaustivo descrever a quantidade e a diversidade de estabelecimentos comerciais e outros que existem ao longo do trajeto descrito, pois ali existem há dezenas de anos as principais lojas de fazendas e retrosarias, prontos a vestir, cafés, farmácias, coletividades, sapatarias, agências bancárias e de seguros, estação dos correios, oculistas, floristas, etc.. Mas o local mais concorrido e com maior tradição é, sem sombra de dúvidas, o Mercado Municipal, no largo com o mesmo nome, construído há 90 anos no outrora denominado Largo dos Abegões. Pois ali existem os talhos, os lugares de frutas e legumes, a peixaria e outros estabelecimentos que compõem uma feliz panóplia de cheiros e de cores que confere ao local uma vivência muito própria.

 

Nos tempos passados, ao longo desta artéria principal da vila existia perto de uma vintena de tabernas (hoje inexistentes), calcorreando a mesma e iniciando a enumeração pela venda do “Tenenta”, passando pela Adega Funda, as tabernas do “Barlica” e do “Perna Curta” entre outras, e terminando na taberna do “Encalha”. Diz bem dos hábitos de então, onde o chamado “mata-bicho” – e passando pela recorrente prova a todas as horas insuspeitas dos copos de “três” e de “cinco”, quer do branco quer do tinto – estava naturalmente sempre presente, sendo igualmente os locais privilegiados de convívio e contribuindo também para anestesiar as canseiras acumuladas.

 

Também neste “rio” têm “navegado” os principais acontecimentos ao longo dos tempos, tais como visitas de governantes, manifestações políticas e religiosas, desfiles de bandas, exibições culturais, arruadas de campanhas eleitorais, etc..

 

Simultaneamente, são também muito notadas as figuras mais emblemáticas da nossa terra, onde recordamos aqueles que obrigatoriamente chamam à nossa memória as mais diversas cenas das boas recordações, algumas delas fazendo parte do nosso anedotário popular.

 

Mas o que é mais notado através dos tempos é o fervilhar de gente que deambula incessantemente neste nosso “leito”, num constante vaivém que funciona numa extensa passarela, onde os mirones de serviço marcam presença assídua, não se demitindo desse regalo que é testemunhar o movimento de gente e de viaturas que alimentam a sua genuína curiosidade.

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