Diário do Alentejo

Comer “significa tomar os alimentos em companhia”

18 de novembro 2019 - 10:10

É professor catedrático jubilado pela Universidade de Lisboa, tendo ensinado no departamento de Geologia da Faculdade de Ciências desde 1961. É autor de 21 livros, entre científicos, pedagógicos, de divulgação científica e de ficção e memórias. Assinou mais de 200 trabalhos em revistas científicas. Como cidadão interventor, em defesa da geologia e do património geológico, publicou mais de 150 artigos de opinião. Foi diretor do Museu Nacional de História Natural, entre 1993 e 2003, tempo em que pôs de pé várias exposições e interveio em mais de 200 palestras, no País e no estrangeiro.

 


Texto José Serrano

 


Galopim de Carvalho apresentou, na Câmara Municipal de Évora, a segunda edição do livro Com Coentros e Conversas à Mistura. A abertura da sessão esteve a cargo de Carlos Pinto de Sá, presidente da autarquia, que assumiu que o tema lhe desperta “água na boca”, sublinhando a grande importância de Galopim de Carvalho em diversas áreas do saber. “Nestas conversas cabe tudo. Além dos saberes de uma culinária tradicional e caseira, cabem relatos ou crónicas de situações vividas e presenciadas, experiências de profissão, intervenções cívicas, ensaios, reflexões que vão da política à filosofia, passando pela arte, com humildade e simplicidade, na perspetiva de ensinar e explicar a quem não sabe”.

 

 

É este livro um bom pretexto para reunir à mesa os amigos, a família?
Este livro é a continuação de Açordas, Migas e Conversas, publicado em 2018. Como o anterior, é um conjunto tanto quanto possível harmónico, intercalando conversas que vão do trivial à divulgação científica e cultural com receitas culinárias de imensa simplicidade, na maioria, marcadas por sabores e modos de vida alentejanos. Além de tudo o que aprendi no imenso mundo da cozinha alentejana, desde criança, com a minha mãe e a minha avó, reuni neste outro livro tudo o que fui modificando e criando de novo.

 

 

Estar à mesa, no Alentejo, é uma experiência que em muito transcende o necessário ato de nos alimentarmos?
Comer, do latim comedere, significa tomar os alimentos em companhia, posto que radica no verbo edere que, por si só, significa esse ato de nos alimentarmos, antecedido do elemento com-, que alude à ideia de com-panhia. E, em companhia, conversa-se sobre tudo o que vem ao sabor de um momento, e esse tudo, no caso deste livro, são relatos ou crónicas de situações vividas e presenciadas, experiências de profissão, intervenções cívicas, ensaios, reflexões que vão da política à filosofia, passando pela divulgação científica e pela arte.

 

 

Há um dito popular, utilizado na margem esquerda do Guadiana, que diz: “Uma mesa sem pão, toda a gente põe”. É, de facto, o pão o elemento primordial da gastronomia alentejana ou outros há?
Sim, mas há que acrescentar ao pão, pelo menos, o porco, o azeite e as ervas.

 


Que prato alentejano escolheria como exemplar representante desta região?
Sem hesitação, as migas com carne de porco frita. Porque estão aqui o pão, o porco, dois dos ditos elementos primordiais.

 

 

Em Évora, durante a apresentação deste seu livro, confidenciou aos presentes: “Quem cozinha lá em casa sou eu”. O que é imprescindível um cozinheiro ter para conquistar os seus convivas, para perpetuar para sempre nas suas memórias uma açorda ou uma canja de amêijoas?
Antes de mais, saber cozinhar. Depois, falar sobre as confeções que lhes oferece.

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