Diário do Alentejo

Cabrita Nascimento: O Alentejo “é o coração do mundo”

15 de julho 2019 - 09:35

Texto José Serrano

 

Estudou fotografia, cinema e vídeo em Lisboa, Porto e Paris. Licenciou-se em Sociologia pela Universidade de Évora e pós-graduou-se em Direito da Cultura e do Património Cultural pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Foi animador cultural e formador nacional do FAOJ/IPJ e internacional em programas da União Europeia. Do seu trabalho artístico destacam-se a participação em 15 exposições coletivas, 17 individuais e quatro prémios em cinema documental não-profissional.

 

“Alentejo Alma da Paisagem” é a exposição fotográfica, da autoria de Cabrita Nascimento, que está patente ao público, até ao dia 1 de agosto, no Centro Unesco, em Beja. Uma mostra de 27 imagens que o autor identifica como “um encontro íntimo com a paisagem do Alentejo”.

 

 

Qual a identidade unificadora deste conjunto de imagens?
Pode a alma criar imagens artísticas? Pode a alma criar paisagens oníricas? Pode a alma criar fotografias poéticas? A resposta fotográfica a estas questões constitui este meu projeto. Imagens primeiramente concebidas na nuvem criativa do cérebro e só depois realizadas nos campos do Alentejo. São imagens pensadas e sonhadas.

 

Quais os valores intrínsecos a esta “alma”?
Este projeto é um processo pessoal de redescoberta da arte, é um encontro íntimo com a paisagem do Alentejo, é um ato de amor para com a poética intrínseca dos campos alentejanos, modelada ao longo dos séculos pela mão do ser humano. O Alentejo é o coração do mundo e nestas fotos, que expressam esse coração, ecoa sempre a voz dos cantadores alentejanos. O cante alentejano é omnipresente nas formas, nos desenhos, nos padrões, nas texturas destas fotos… eu ouvia-o nas cores e nas árvores dos campos.

 

Quais das características desta paisagem “coração do mundo” serão as mais difíceis de transportar intactas para uma imagem fotográfica?
É uma evidência que a paisagem do Alentejo se transformou aceleradamente com as culturas intensivas de regadio, que podem constituir uma degradação ecológica e cultural de uma paisagem tão diversificada e harmónica como esta. Precisamos de estar atentos, em termos cívicos, e não deixar descaracterizar este precioso património, modelado por séculos de sabedoria e filosofia agrícola do homem alentejano, donde brotou uma expressão tão maravilhosa como o cante alentejano.

 

Constitui esta exposição, no sentido intimista que lhe confere, resposta a um sobressalto, a uma questão premente?
Esta exposição constituiu-se sempre como uma necessidade íntima, um desafio técnico e estético; transformou-se numa pesquisa artística sobre as transformações das paisagens no Alentejo. Este projeto é um trabalho de fundo iniciado há mais de 30 anos.

 

O que gostaria que estas imagens pudessem transmitir ao espetador que se disponibiliza a olhá-las?
Cada foto pretende estabelecer uma relação poética simpática com cada pessoa que a contempla: contemplar é a palavra-chave. Pretende-se fundir neste projeto a arte-linguagem da alma com a arte-construção criativa, para que ambas possam confluir na arte-expressão, para que cada foto estabeleça uma comunhão com o seu observador, provocando-o para uma relação dialógica de reconstrução da sua própria ideia de uma “alma” paisagista alentejana. O choque estético, o choque poético, o choque contemplativo

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