Diário do Alentejo

Paulo Ribeiro: Um namoro de mãos dadas entre o cante e a pop

24 de maio 2019 - 19:30

Texto José Serrano 

 

Cantautor apaixonado pelo Alentejo. Autor de modas para o cante alentejano, compositor de bandas sonoras, música para peças de teatro e performances de poesia, o seu nome está ligado a projetos como Anonimato, Eroscópio, Baile Popular ou Tais Quais, entre outros. Desenvolve, há cerca de duas décadas, um intenso trabalho em torno do cante, como ensaiador de grupos corais e, mais recentemente, como formador musical de crianças, nas escolas. Desde 2018 que assume a direção artística do Festival B, em Beja. Tem vários discos editados e três novos “vêm aí a caminho”.

 

Será apresentado ao público no próximo dia 7 de junho, em Serpa, o disco “É assim... uma espécie de cante”, fruto de uma parceria artística entre o músico bejense Paulo Ribeiro e o grupo coral Os Camponeses de Pias. A apresentação ao vivo deste trabalho, no âmbito do programa do Encontro de Culturas de Serpa, está prevista para as 20:00 horas e decorrerá no anfiteatro do espaço Musibéria.

 

É este disco uma “espécie” de namoro entre a música pop e o cante alentejano?
Sim, na medida em que alguns dos grandes êxitos da música pop portuguesa foram adaptados à luz da linguagem do cante. Digamos que as canções são decantadas pelos timbres e pelas vozes únicas do grupo coral e etnográfico Os Camponeses de Pias, ao quais me junto, para se transformarem em modas, não no sentido tradicional, mas numa perspetiva de algo novo que emerge.

 

Quais os principais desafios sentidos entre a união destas duas identidades musicais?
A minha ideia foi sempre que estes temas pudessem soar a cante sem perderem o desenho melódico das canções originais. Mantive as letras intactas, havendo sempre uma voz, que é o ponto, que inicia os primeiros versos preparando a entrada do alto, ao qual se junta o coro. Nesse sentido não fugimos à estrutura do cante. O que temos é uma fusão de duas linguagens que interagem e se complementam.

 

Qual a contribuição que esta parceria de estilos, invulgar, poderá ter enquanto promotora do cante alentejano?
O cante é uma entidade dinâmica. Devemos preservá-lo mas procurar também, a partir da sua matriz, reinventá-lo e adaptá-lo aos dias de hoje. A tradição sempre me interessou mas não a encaro como uma peça imóvel adormecida numa vitrina de museu. Devemos conhecer a fundo e continuar a cantar as modas emblemáticas do cancioneiro, caso contrário não poderemos inovar de forma a respeitarmos o cante, mas temos de perceber que o mundo rural, tal como existia há décadas, desapareceu. Espero que este trabalho, ao incluir modas originais da minha autoria, possa refletir o tempo em que vivemos e desejo que no futuro se componham novas melodias para que o cante não cristalize.

 

Considera importante, para a contemporaneidade do cante, o assumir de uma ideia que conjuga tradição e inovação?
Sim. No fundo é uma forma de celebrarmos este legado, este forte traço da nossa identidade que é Património da Humanidade. A tradição e a inovação não têm necessariamente de andar de costas voltadas. O cante é um grande rio imparável alicerçado na tradição. No entanto, podem existir pontos de fuga, afluentes desse rio.

 

Crê ser possível que, um destes dias, possamos assistir a um dueto entre Os Cantadores de Pias e Pedro Abrunhosa ou Boss AC?
Sem dúvida. A sensação que tenho com Os Camponeses de Pias é a de que estamos sempre a fervilhar em ideias inesgotáveis. Deixo por isso aqui uma palavra de gratidão e um abraço a este excelente grupo, sempre aberto a novos desafios. 

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